PERDÃO


posted by Tiago Peçanha

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Faltava ar. O que era aquilo no reflexo? Havia um borrão no seu rosto, não te reconhecia, seu corpo estava todo fragmentado. Estávamos de mãos dadas a segundos atrás. Agora não estamos mais. Não fazia sentido. Sua risada perpetuava-se num eco canto a canto pelos ouvidos, até que findava-se quando eu tentava encontra-lo. Eu não consigo compreender. O meu sistema deve estar em pane novamente.

Eu tinha um plano. Era uma ideia. Eu devo voltar à essa ideia. Talvez a razão esteja lá. Talvez eu saia desse bug.

Cliquei. 

Lembro que queria um pano que não me fizesse espirrar. Não podia ser algo tão fino, mas também não podia ficar tão preso à pele, sufocando meus movimentos e evidenciando meus desleixos pelo corpo. Tinha que ser branco, com mapas pretos que se perderiam por toda a costura e que dariam unidade ao meu estilo. Para os pés, nada ali na loja serviria; para a cabeça a mesma coisa. O alfaiate desenhou-o pela malha, de acordo com a postura que havia pedido. Era de comum rotina ele perguntar o motivo, ainda que nunca recebesse nos ouvidos qualquer resposta. Só o fazia, como o prazer do trabalho ordenava. Uma vez que terminou sua obra de dias penosos atrás, persistiu em plantar indagações, e novamente não colheu nada. Enverguei a carteira e fiz voar as notas no balcão. Agradeci o trabalho do velho amigo e dei com os panos prontos nos ombros.

Em plena contramão à minha casa, dancei com as rodas do carro no rodapé do loteamento vago perto de uma fazenda e estacionei rente ao murinho triste de madeira. Subi no tronco mais parrudo e assentei-me a encarar o vasto gramado. Fitei a bela vista e tive no olhar a atenção do estudo daquele lugar. Ele fazia uma sinuosidade, sem nem perceber que parecia uma onda esverdeada. Dava lá no pico a vista mais panorâmica do céu: o mar de estrelas que viria à noite era um presente para se ver deitado. Conduzi-me a um breve momento de reflexão, encaixando meu braços respirando fundo, bem como despencando meus olhos para baixo e afrouxando meus ombros. Por incrível que pareça, meu plano parecia fazer sentido naquele horizonte sem nada. Suguei o ar como se nunca mais fosse respirar e despedi-me dizendo “até logo”.

Num mata-burro ali próximo, encontrei uma cabeça de boi num portão enferrujado. A peguei. Quebrei-lhe os chifres sem delicadeza e arranquei-lhe a parte do nariz, com a melhor sutilidade cirúrgica que fosse possível no momento. Ao lado dos números que identificavam o lugar havia uma ferradura, que foi furtada para se juntar às outras três que já havia saqueado de outros lugares.

Não havia mais nada que quisesse fazer, apenas recolher-me em casa e esperar a noite para retornar àquele local.

No quarto, deslizei a mão pelo rosto, como se quisesse limpá-lo sem nada por ele. Engoli em seco. Girei os olhos em um redemoinho infinito, tudo conduzido pela força centrípeta dos imparáveis pensamentos. As neuroses obsessivas assumiam o posto de comandantes da mente. Tudo era ruim. Tudo era pessimismo. Dei um selinho na xícara de café quente e assentei-me em frente ao computador. Nada fazia sentido. Digitei no campo de pesquisa do Facebook “Gaya”. Logo apareceu o rosto dela, da Valeria Gaya. Sorridente, como era de praxe.  Não cliquei. O “Em memória de” antes de seu nome ainda estava lá. Era como um túmulo online. Isso trazia-me a um indócil desmaio nas minhas próprias neuroses. Sentia-me culpado. Inclinei as costas para trás. Grudei os olhos no teto. Cocei a nuca em negação. Esmurracei a mesa com as mãos e com a testa. Sufoquei-me em uma angústia que ardia, enquanto não sentia-me em lugar nenhum. A ideia era de um surto. Até que de fato assim virou. Deitei-me na cama para expurga-lo antes que tomasse conta de mim por completo. Fechei os olhos e esperei que o tempo passasse.

Horas depois, levantei-me girando o tronco para o lado e catei na gaveta aberta do criado-mudo os panos que comprara. Fui até o banheiro e abri o pote de tinta branca. Pintei todo o meu rosto – incluindo o cabelo, as pálpebras e também as orelhas. Na cozinha, embaixo da pia havia um saco de linhagem. Apanhei-o e abri. Havia muito mato e também esterco. Joguei metade daquilo por todo o corpo; após colocar os panos que pedi ao alfaiate, terminei de jogar o resto. Acoplei os chifres nas extremidades da cabeça. Em uma gambiarra não muito bem feita, fiz do nariz do falecido boi uma mascará. Nos pés, duas ferraduras coladas abaixo de cada um dos chinelos; nas mãos só colocaria quando chegasse ao local. O traje estava pronto.

Em meu perfil, deixei uma mensagem pública a todos antes de ir ao local:

“Para ter o perdão, é preciso antes de mais nada buscar a razão do motivo que trouxe-lhe a cometer o seu pecado.

“Sejam bondosos e compassivos uns para com os outros, perdoando-se mutuamente, assim como Deus os perdoou em Cristo. Efésios 4:32”

Oito e vinte e cinco da noite. Do assento do carro já observava a escuridão da fazenda. O céu estava limpo, completamente contrário de minha mente, que não me dava paz sequer por um segundo. Deixei o veículo não muito distante e pulei o cercadinho.

Adicionei as últimas duas ferraduras, dessa vez em cada uma das mãos. Fiquei de quatro no gramado. Hesitei um instante. Comecei a imitar uma vaca. Mugia alto, baixo e falhado. Transpassava pelo silêncio, mascava umas folhas no chão e encarava qualquer lugar que meus olhos estivessem fixados.

A neblina da madrugada convidava indelicadamente o arrepio na pele. Mas eu resistia. Entre algumas lágrimas que jorravam tímidas levando a tinta do rosto, resistia. Eu precisava encontrar onde havia surgido a raiva daquele dia, também o motivo do pecado. Enquanto secava o rosto observei a projeção intensa de uma sombra no chão. Uma luz muito forte vinha no sentido oposto, em altura considerável, mas mantendo distância de mim.

- Muuuuu, muuuuuu, muuuuuu. – com um alto e definido som, imitei ainda com mais contundência uma vaca.

A luz foi se aproximando. Dessa vez fazendo giros incríveis e ornada em uma intensidade desconhecida do que de costume já tivera visto antes. Imitei um leve cavalgar até rente a luminosidade e continuei meu espetáculo bizarro.

- Por que você está fazendo isso? Quer enganar a quem? – disse a voz vindo dispersada nos raios das luzes.
- Muuuu, muuuu.
- Pode parar com isso. Responda-me, por que está fazendo isso?
- Eu sou uma vaca.
- Rapaz, pare com isso. Venha cá. Vou te ajudar. Está frio demais aqui fora.

Eu reforcei o cavalgar com um relincho tímido. Mas eu não sabia coisa nenhuma do que eu estava fazendo.

- Não se aproxime, senão eu vou te pisotear.
- Calma, calma. Vamos conversar.
- Não tem conversa. Sai daqui senão eu vou te matar.

O senhor aproximou-se calmamente de mim e por fim tentou amistosamente saber o que estava acontecendo. A fúria estava desenhada nos meus olhos, mas meu sistema encontrava-se completamente conflitante, porque ao tempo que não via sentido na raiva, não via sentido na vida, em mim, no tempo, no espaço, em nada.

- Por que você está aqui? Te aconteceu alguma coisa? – disse o senhor, num tom de voz afável.
- Gaya. – eu dizia, enquanto retorcia e voltava o pescoço num tique imparável.
- Quem é Gaya?
- Vaca.
- O que?
- Gaya. Vaca. Gramado. Sangue. Morte.
- Ei, concentre-se. Eu não estou entendendo nada.
- Pisotear. Eu vou te pisotear. Como ela fez. Massacrou, pisoteou, amassou a cabeça. Explosão. Sangue para todo o lado. Sem ação. Sem reação. Sangue. Muito sangue.
- Meu filho, aprume-se. Você está desnorteado.

O senhor estava perdido também. Eu soltava as palavras aleatoriamente e não o convencia de nada senão do meu próprio surto.

- Como eu posso perdoá-la, se com isso que fiz eu... eu não consigo entende-la, muito menos os seus motivos.

Desmaiei.

Abri meus olhos e eu estava deitado nos assentos de trás do meu carro. No meu peito, uma foto minha e de Gaya juntos, tendo como fundo aquele vasto gramado, os cabelos esvoaçados e o sol banhando nossas nucas. Ouvi alguém me chamar. O som estava baixo, porque os vidros estavam fechados. Olhei la fora. Gaya vinha em direção ao carro, destrambelhada com seu jeito engraçado de andar. Eu respirei fundo...

Você não caiu nesse erro da minha mente, caiu? Meu sistema está falhando, não se lembra? Isso é um bug. É uma proteção de tela, assim como aquelas de cachorrinhos pulando na grama e de pétalas de flores de várias cores. Se eu der um clique eu volto à realidade de uma área de trabalho completamente suja e cheia.

Cliquei.

Recobrei-me. Eu voltei a estar no banco de trás do carro. Estava tudo muito escuro. Encontrava-me encarando qualquer lugar pelo vidro da janela. Eu estava dentro de uma viatura. As luzes vermelhas e azuis rodopiando coloriam o gramado avermelhado. Vi um corpo estirado com uma capa metálica em cima. Gaya estava realmente morta; como eu a reconheci eu não sei. Ao lado dela, uma vaca abatida com alguns tiros pelo corpo.

Seria mais um bug? 

Cliquei.

Abri os olhos.

Da viatura eu não havia saído. 

2016


posted by Tiago Peçanha

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A pilha de relatórios se erguia. O telefone do escritório tocava e o som se esvaziava aos poucos que não era atendido. O bater na porta enfraquecido, miúdo como a desesperança do atendimento. A caneta ora repousada, ora atrás da orelha, ora em onomatopeia com a mesa, ora em concerto com o repique dos pés. A resposta não vinha. O celular não disparava fogos e o avião não passava no céu dispersando em fumaça “sim, eu aceito sair com você”. Donn não se aguentava. No aplicativo o pedido para sair feito a uma garota que de ti não conhecia nada, senão somente a casca do seu ser. Pedido feito um dia e meio antes, contado em cada segundo de ansiedade. Na mensagem, um pouco singelo, educado; na foto, robusto como um disfarce perfeito de algo chamativo. O galanteio direto, objetivo como a teia de uma aranha perto de um mosquedo. Em sua cabeça rodeava a matemática da média, sendo que pensava ter a nota suficiente para ter a aprovação daquela garota.

O celular vibrou. Era uma chamada pelo whatsapp.

“Mãe está ligando”.

- Oi. – disse, esbravejado.
- Acabei de tirar do forno. O carbonara talhou e ficou sem sal; as almondegas só parecem uma carne sem vida.
- O que eu vou fazer? Não passei tanto tempo fazendo essa merda à toa.
- Quer impressionar alguém? Pelo seu tom eu vejo um desespero por aprovação.
- Eu nem sei se vai ter alguém para provar.
- Ela ainda não te respondeu, não é?
- Te disse que meu caminhão só transporta cascalho de pedras pequenas.
- Você é mais do que imagina, só não sabe disso. Vou temperar com sazon, besuntar em creme de leite e dar banho de molho de tomate nessas almondegas desanimadas. Não te preocupa.
- Veja pelo meu prato. Eu quero impressiona-la com macarrão e carne moída. E para variar não deu certo. Eu sou mesmo a delinquência do pessimismo.
- Trabalhe. Depois faça o que tem planejado. Tudo vai funcionar. Tropicando, mas vai. – disse, enquanto batia as bochechas nas teclas. – Vou desligar antes que o cheiro de queimado chegue até aí no edifício.

Era noite de ceia de natal. Toda a empresa em que Donn trabalhava se reuniria para uma celebração. Era preciso servir as pessoas com o melhor que cada um pudesse cozinhar. Era esperado por Donn que Sheron fosse até o jantar, afinal, ela era filha do dono da empresa e senão a maior coordenadora do sucesso daquele estabelecimento até então. Ela não trabalhava em seu setor, mas fazia parte do pequeno número de pessoas que poderiam ser convidadas por cada um como uma espécie de regalia empresarial. Ele gastou seu único convite com uma incerteza. Mas Donn pensou que o clima aconchegante da celebração pagã poderia ser a melhor combinação para conhecer Sheron, que não uma festa, ou show, ou qualquer lugar populoso demais. O mundo teria que ser dos dois por uma noite, única e somente para dividir seus olhares e compartilhar suas fantasias e descrever a ilusão de lua cheia em dia de lua nova.  

Pensou em Sheron. Iludiu-se por um instante. Fantasiou o cheiro, o sufoco do abraço apertado, a risada pela escolha de seu prato, a reação maravilhada de sua mãe ao ver seu semblante satisfeito e ornado completamente por um espirito descarregado e pleno com os olhos franzidos em agradecimento por ter sido exatamente como a expectativa.

O celular vibrou. De novo.

No topo do balão de notificação a área que até então mostra o nome da pessoa que a enviava estava vazia, mas a mensagem destacava-se em negrito. Imediatamente cobriu-o com as mãos e fechou os olhos. Poderia ser ela. Respirou fundo e convenceu-se de que um “não” não poderia ser nada mais que uma escolha normal e individual dela. Recolheu o aparelho até seu colo e embeiçado entre suas pernas. Contorceu os ombros para dentro, desenhou angustia nos lábios e apertou os olhos como se uma dose de uísque quente tivesse-lhe descido goela abaixo. Retirou a mão da tela.

“Corpo de jovem é encontrado estirado em uma lixeira, onde não apresentava hematomas e suas roupas encontravam-se completamente bem-conservadas. A pequena bolsa de mão estava caída ao chão, aberta, mas com seus pertences dentro. A polícia suspeita de assalto seguido de homicídio...”

Interrompeu a leitura. Inclinou a coluna e bateu levemente a testa na quina da mesa. Baforou. Recusou-se a ler o resto. Era inacreditável pensar um mundo moderno que não se livrou de correntes pela internet.

“Mãe está ligando”

- Vai me dizer que a comida queimou mesmo?
- Acabei de receber aqui no whatsapp uma notícia de um assassinato e...
- Mãe, para de te impressionar com essas coisas! Essas correntes não existem!
- Menino, mas vieram fotos e vídeo também, não recebeu aí?
- Só o texto e mais nada.
- Vou te mandar.

De posse da tela desbloqueada e dedilhando as fotos, o olhar sereno deu lugar a uma breve palidez, seguida da diminuição lenta e progressiva dos batimentos cardíacos e a boca empalidecendo-se tristemente. Os olhos reconheceram aqueles que jamais poderiam conhecer os seus; o cabelo, tão característico no seu rosto, já desfigurado e incrivelmente bem penteado e no seu lugar; ela, deitada no chão, com as mãos como se tivesse esperado pela morte ali deitada e nenhum sangue embebedando o chão.

Sheron estava morta.

- Meu filho, eu não te escuto. Fale comigo.

Donn pouco reagia.

- Eu já mandei um moto-taxi levar as comidas para onde você pediu. É na Rua Pimentas Veiga, não é? A minha cabeça é tão ruim.
- É... Errado, mamãe. Nós nos mudamos para o quadrante seguinte, lembra que te falei? Aliás, me preocupa muito seus esquecimentos.
- Como é que faz? O moço já foi. E agora?
- Eu vou lá.

No noticiário que passava na TV apenas a repercussão da “morte da filha de um grande empresário”, mas não de “Sheron Gonzaga Litto”. A parte mais curiosa ficava pelo fato da família ter solicitado que o velório acontecesse no hall da empresa, local que ela mais frequentava dia-a-dia, tinha seu amor enfático e dedicado, e um dos pilares mais fortes de seu pai na manutenção daquele lugar. Toda a família Litto se reuniria numa ceia de natal, mas para levar ao topo da árvore a estrela de Sheron.

Ainda que o clima não fosse nada convidativo à qualquer jantar ou comemoração, toda a família de Sheron decidiu por não adiá-lo. Ela amava aquela data como quem ama pelo simples sabor que aquele dia trazia alegria compartilhada.

Donn foi até o antigo endereço para recuperar o que tinha feito.

Quando retornou, todos os pratos na mesa estavam figurando um banquete triste. O seu, só mais um que feito para uma expectativa que nunca iria se cumprir. Após colocá-lo na mesa, foi de encontro ao caixão de Sheron. Queria poder vê-la de perto.

Sua pele estava cinza, sua boca colorida, suas mãos sem vida e seus cílios cabisbaixos. O vestido preto contrastando com seu cabelo. O véu escondendo seu rosto. Era triste pensar que queria lhe conhecer serena como se apresentava sorrindo em suas fotos e tudo que via era o fim de uma jornada de quem só tinha muito ainda para viver. Parecia dormir quieta como um monge. Seu peito estava mais estufado, ou indicava algum inchaço de uma má reação de seu corpo. Com todo o respeito, colocou a mão logo abaixo de seu pescoço e respirou fundo engolindo em seco. Cochichou uma oração. Sentiu o coração dela bater.

Donn caiu ao chão destrambelhado. Repetia monossílabas e rastejava as nádegas no chão. Não conseguia se erguer. Chamava pelas pessoas e ninguém lhe entendia. Um tio de Sheron o ajudou a levantar. Com as mãos no joelho e rangendo de susto, disse ao tio para colocar a mão no peito da falecida.

O tio sentiu também.

Gritos finos como grafite quicavam em cada canto do hall. O desespero somado a uma esperança que jamais se desenhou antes. A ceia esboçava um milagre natalino e a medicina via-se confrontada com seu diagnóstico precário. Aquele corpo reagia. Biologia, física e química já aposentavam-se nos livros dos mais vívidos e pulsantes corações de cada um ali presente.

Com o rosto enxurrado de lágrimas, Donn percebeu que não sentia a respiração de Sheron. Era preciso fazer uma massagem cardíaca para revive-la de fato. Ergueu as mangas do terno e chamou por todos. Apertou fortemente o peito da garota.

Todo o hall explodiu.


As chamas lamberam as ruas, as fiações e as buzinas dos alarmes dos carros anunciavam um ato terrorista. Uma bomba encontrava-se instalada dentro do peito dela. 

Magnetismo


posted by Tiago Peçanha

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Um movimento brusco e um vulto preto no cateto dos olhos. Um senhor abaixou-se para pegar seu boné. Deu com os joelhos dobrados no chão enquanto estendia a mão em negação. Uma mulher gritava com ele. Seus gritos não eram proporcionais ao seu tamanho. Ela o acusava. Ele se defendia com a voz embriagada. O tom da gritaria se elevou. As pessoas, num ímpeto de multidão aflita por uma confusão, quase davam as mãos em ciranda e cirandinha. No ringue uma discussão por um copo de uísque. A mulher alegava que o homem havia roubado uma garrafa inteira dela num dia em que sua loja fazia uma degustação grátis dos modelos antigos oriundos de países com apenas consoantes. As ofensas não pediam licença. Os dedos apontados para a cara um do outro não tinham bússola. As quitandas ali em volta suavam frio com medo de serem flageladas por um empurrão. O senhor finalmente realocou o boné na cabeça. Mas nem deu tempo dele se encaixar direito. A mulher aplicou-lhe um tapa na maior direção que seus pequenos braços poderiam atingir. Ele se desviou. E assim, num infortúnio descuido, atingiu o corte nos pontos da apêndice recém-operada de meu tio. Nós só nos direcionamos até ali para comprar um cacho de bananas, nem confetes tínhamos para enfeitar a briga. Mas voltamos com um pedaço de unha atrelado a um fio de costura. Meu tio foi para o hospital realocar os pontos e eu fui para o ponto de ônibus.

O céu ronronou. Davam faíscas brilhantes e os coqueiros dobravam. Ele empalideceu-se de repente. Olhei para o relógio. Faltavam cinco minutos para o ônibus passar. Eu o cutucava e batia a ponta do pé em ansiedade tal como fazia com minha mãe nos dias que estávamos atrasados pro yoga. Isso de nada adiantava, não daria um estalo repentino no ouvido do motorista. As pessoas olhavam meu guarda-chuva como se fosse o último recurso num apocalipse inevitável. Apertei-o entre os braços e o chamei de filho. Alguns pingos furaram a largada. Estava absolutamente tranquilo. Eu tinha um guarda-costas e em minha pele não encostaria nada além de um vento exagerado. Na ponta da esquina duas moças vinham em disparada. Uma carregando um bolo de casamento; outra gritando “ai meu Deus, será que esse homem vai parar pra gente subir?”. Era meu ônibus que em vinha disputando corrida com as moças desesperadas. Naquele instante a chuva cai de pronto. Abri o guarda-chuva. Montei minha seca casinha debaixo dele. A moça que carregava um peso que seus braços pediam por arrego estava a frente da outra que não sabia que naquele dia atuava como frentista. O vento forte trazia indelicadamente a chuva de lado. Virei meu guarda-chuva para o lado esquerdo de mim. A moça que levava o bolo parou para procurar uma marquise. A próxima rajada foi tão forte que fez a moça que vinha correndo escorregar. Como tudo que ela podia apoiar ali por perto estava escorregadio, ela procurou pela minha perna. O maior erro de sua vida, pois ela também estava úmida. Acabou que ela derrapou toda sobre mim e segurou forte por demais minha bermuda e a abaixou até meus pés, dando com os beiços no chão. Soltei o guarda-chuva que voou para a direção contrária e onde eu já chorava por ter que ir buscá-lo. No que fui de encontro aos meus pés para levantar minha bermuda e congelado na posição de agachado, vejo que ele prontamente acertou o bolo no meio, fazendo uma cascata ao contrário de pedaços de massas que nunca mais iriam se juntar.

A única imagem que vinha aos meus olhos era a da fúria dos deuses gregos ensaiada nos olhos daquela moça. Ela iria me assassinar com ou sem o guarda-chuva. Mas quando voltei à realidade vi que ela somente desenhou no rosto uma tristeza de quem realmente não sabia o que fazer a partir dali.

Cheguei perto.

- Como posso te trazer confiança depois de me ver de cueca e acabar com o seu bolo?
- Deisimara. – disse, abaixando o rosto.
- O que?
- Deisimara Antunes Capelleto Silva.
- Não entendo.
- Esse será o nome de casado dela a partir das 20h.
- Ah, o bolo...
- Não é o bolo, é a vida.
- Se eu não tivesse aparecido no seu caminho hoje nada disso teria acontecido. Mas posso propor de improvisarmos. Eu vou ali na padaria e compro um bolo mais simples, mas significativo. Talvez com ele irá uma história para contar. 

Ela olhou com um semblante de quem não estava nem aí para nada dali em diante. Mas eu insisti e disse que voltaria em no máximo dez minutos.

Comprei rapidamente e desci o morro do supermercado.

Andava depressa como sempre fazia antes. Olhava para baixo ignorando os olhos de todo mundo. Conhecia o caminho para o supermercado/ponto de onibus apenas pelas linhas surradas do chão esgarranchado. Fazia o caminho dos desvios de muitos ombros que faziam de tudo para desviar dos meus. Mas um me esbarrou forte. Ergui a cabeça e pedi desculpas sem nem saber para quem ela era enviada. “Ei”, ouvi de longe. Olhei. Nora Aline, ou “Line” para os íntimos. Line veio de encontro a mim com os braços abertos. Os encaixou pelo meu corpo num abraço espontâneo. Senti calor na alma. Devolvi o carinho apertando levemente meus dedos em suas costas.

- Como se esquecer desse abraço? – disse ela me soltando e devolvendo um sorriso.

Line foi o melhor presente que nunca ganhei. Talvez ela ter aparecido naquela hora e naquele momento foi mais uma vez a vida lhe descendo como isca e eu um peixe a deriva, sem que nem por uma vez eu tive a coragem de abocanha-la. Com ela a todo momento que dividíamos o cotidiano num diálogo sem tempo, sentia uma vontade de dizer minhas inseguranças e saber que ela faria da minha fraqueza um ser tão inquebrável como o martelo de Thor. Seja pelo fato de que eu não precisava ser um personagem de mim para lhe trazer alegria, ou seja pelo fato de que jamais precisei oferece-la a propaganda de um produto que ela gostava de ter para si. Nós éramos como um punhal cravado numa cana-de-açúcar. Nós éramos a hóstia que ungia o bem no corpo um do outro. O vinho que compartilhávamos nas noites que vendíamos ao esforço de passar a papelada do trabalho tinha gosto de quem queria fazer como seu efeito: desacelerar o envelhecimento daquela relação tão sadia. A gente mantinha um relacionamento sem que nos namorássemos. Éramos dois, mas vistos como um palitinho ao lado do outro. Não nego que por toda minha vida eu desejei que fossemos unidade. 

- Eu sinto saudade de você. - disse ela, como se fosse roteirista dos meus pensamentos. 
- Não queira saber o que está na minha cabeça agora. 
- Não entendi. 
- O que está aqui dentro deve permanecer aqui dentro. 
- Cara? 

Nós nunca nos despedimos antes, porque de adeus nunca soubemos brincar. Mas Line largou o trabalho para escalar montanhas e vencer desafios. Talvez quisesse desafiar a vida recebendo somente a medalha invisível da bravura, ou mesmo viver intensamente como eu sei que nosso trabalho nunca iria lhe propor à isso. Eu nunca entendi essa decisão, mas eu respeitava. Eu nunca mais a vi desde então, pelo menos não fisicamente, só quando vasculhava meus pensamentos para repaginar o que ainda havia dela dentro de mim. 

- Eu visitei sua mãe. Deixei um broche com ela de presente para você. 
- Esse? - disse tirando-o de dentro da blusa e amarrado a um cordão. 
- Acho que combina contigo. 
- Essa pantera não sai do meu peito. É um pouco de você para os meus dias. 

No supermercado um barulho ensurdecedor de caixas caindo cortou o nosso encarar envergonhado nos olhos. As pessoas alvoraçadas como baratas embaixo do pé da geladeira. Viro para olhar. Como o supermercado fica num morro, as pessoas desciam em velocidade mais rápida do que jamais conseguiriam atingir. Algumas tropeçavam e outras apenas deitavam e eram pisoteadas. Uma avalanche de melancias vinha em nossa direção. Muitas atingiam as pessoas e as faziam rolar junto delas morro abaixo. Algumas espatifavam e outras não conseguiam seguir um rumo reto. Só fui me dar conta da realidade daquilo quando uma me atingiu nas costas, me jogou na direção de Line e nos derrubou. 

- Desculpas, mil desculpas! 
- Está tudo bem. Não machuquei. Mas estou cheirando a glacê. 

O bolo já era. E eu não podia dizer mais nada para Line, nem para tomarmos um café juntos, ou fazer piadas de perfumes com essência de bolo que não sabemos se existem. Talvez aquilo ter acontecido naquela hora fosse a vida batendo ponto no seu trabalho cotidiano de ser ela mesma. 

- Esse bolo era para alguém? - ela perguntou. 

De onde estava eu podia ver o ponto de ônibus. Em mim a única dor de que eu falhei na missão de consertar um erro. O erro veio até mim e eu deixei ele ser orquestra do caos. Olhei para ver se via as duas moças. Elas ainda estavam lá. Uma delas impaciente, andando e voltando num circuito de um metro e meio. Mas será que elas acreditariam numa avalanche de melancias? Ou que eu parei para conversar com um grande amor que nunca tive e eu sujei a roupa dela com o glacê vermelho do bolo que tinha acabado de comprar? Era mais provável dizer que eu parecia um campo magnético e que eu atraia toda a energia negativa ao redor para mim. 

- Eu vou tentar achar um lugar para eu me limpar. Vê se não some. Eu gosto muito de você e não de uma forma que suporte a saudade. - disse ela ao tempo que me entregava um beijo na bochecha segurando meu queixo. 
- Espera! - segurei firme o braço dela. - Eu não quero que esse assunto fique mais uma vez inacabado entre nós. 

No que me aproximei romanticamente dos lábios de Line, sinto passos rápidos atrás de mim e um zunido nos meus ouvidos. Era a moça que carregava o bolo, com um soco inglês na mão direita e que naquele instante acabara de me golpear fortemente no lado direito do ouvido. Caí desmaiado. 

Quando finalmente acordei, vi meu tio sentado na cadeira ao lado da cama. Ao me ver abrir os olhos, ele disse: 

- Fica o aprendizado desse dia: mais vale aguentar uma cãibra que ir comprar um cacho de bananas.

2014


posted by Tiago Peçanha

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- E aquele emprego que apareceu para você alguns dias atrás? Como foi?

- Era de manhã cedo. Recebi uma ligação. Inesperada, confesso. A moça do outro lado mal anunciou que estava convidado a me juntar à equipe que quase não consegui conter minha felicidade: tapava minha própria boca e dos dedos vazavam mínimos gritos histéricos de euforia. Quando me recompus, ela começou a perguntar sobre disponibilidade. Trabalharia durante pelo menos longos seis meses sem fazer muitos gastos e apenas juntando dinheiro para um fundo investidor o qual colocaria meu avô debilitado num albergue e vê-lo longe do sofrimento da indisponibilidade da família. Mas o que eu não sabia é que no local que eu trabalharia um dos chefes era também um dos sócios do albergue que rejeitou o pedido anterior que eu já tinha feito com o décimo terceiro de minha prima e o PIS de meu outro emprego para internar meu avô. E o pior: existia somente este albergue num raio alcançável da nossa falta de transporte. Escolhi por abandoná-lo. 

- Mas abandonou assim tão fácil algo difícil de conquistar?

- Meu amor por meu avô era maior que qualquer emprego. Mesmo que a decisão doesse. 

- O que você fez depois? Deveria estar desorientado.

- Logo depois liguei chorando para minha irmã e disse que a visitaria para desabafar. Pegaria o ônibus para Ilhas de Macaé, que parava a mais ou menos cem metros da casa dela. Era uma viagem longa, quase a uma hora de distância. Eu odiava ter que ir até lá dessa maneira, sempre me estressava. Mas, como era horário de pico, o ponto estava lotado, para variar. Eu sabia que quando o ônibus chegasse ele ficaria abarrotado. Dito e feito. Acabei ficando em pé. Esmagado entre axilas erguidas e mal depiladas. Até que o ônibus parou num ponto e do vidro vi alguém subir. Sim, o cara que matou a facadas meu irmão e que já havia cumprido a pena que a justiça entendia que valia a vida de um inocente. Ele ficou no final do ônibus e eu me escondia para que ele não me visse. Eu tinha que dar um jeito de sumir daquele ônibus. Acabei por parar quase um quilômetro antes da casa de minha irmã. Mas foi para melhor. O que me deixou em choque é que estava descendo pela minha timeline no Facebook e vi muitas pessoas comentando que aquele mesmo ônibus veio a chocar na ponte dos Cinco Cisnes e todos as pessoas que estavam nele tiveram que descer e esperar pelo próximo que sairia da garagem para buscá-los. Disseram que o motorista dormiu. Mas apenas alguns ficaram feridos.

- O assassino de seu irmão poupou-lhe de uma possível tragédia.

- Prefiro entender apenas como um instinto de sorte.

- Mas ficou só por isso?

- Não. No caminho para casa de minha irmã decidi ir até o mercado comprar maracujás para fazer um suco e um mousse. Enquanto escolhia, sentia que alguém me fitava por trás. Entre a bancada dos maracujás eu tentava olhar quem era com o rabo do olho. Avistei. Era ela... era ela...

- Elisângela?

- Sem perder o timbre daquele olhar maligno.

- Ela te cumprimentou?

- Eu não queria. Seria como cumprimentar a tristeza e chamá-la para comer um pudim à noite. Mas ela veio de encontro a mim. Perguntou coisas triviais e não desviava a atenção do quanto eu evitava lhe encarar nos olhos. Você sabe como a gente funciona, não sabe? Amores passados quando vistos pelo espelho da alma doem como a subida do efeito de uma pinga tomada de estômago vazio. Eu queria. Mas não podia. E ela sentia uma vontade de me acolher, de sentir o meu sentimento e me apertar nas costas e fazer cuspir tudo que estava guardado. Mas eu permanecia de poucas respostas e fazia do chão a melhor companhia de meus olhos. Até que ela disse que a gente deveria ir caminhando e conversando até a casa de minha irmã. Aceitei. Minhas mãos borbulhavam para achar as dela. Queria que seguíssemos pelo mesmo passo. Mas a vida fez da gente um perfeito desencontro. Ela me disse que se arrependia e sentia falta do meu carinho. Acolhi a esperança, não medindo consequências e nem as feridas ainda abertas. Ela parecia animada. Tinha os olhos fortes como eram característicos, mas perdidos nas dúvidas das escolhas. Porém, ela me disse que tinha casos inacabados. Para variar, os fantasmas que assombraram nosso relacionamento. O celular dela vibrou. Ela pegou para atender. De longe consegui ver a imagem. Era o chefe do local que eu acabara de pedir demissão.

- Essa coincidência me faz duvidar da sua história.

- Para te ser sincero, a minha vida é uma eterna vivência em coincidências.

- Mas parece tudo conectado e ao mesmo tempo desencontrado. Não sei dizer.

- Se minha vida tem um status, a frase infinita dela é essa que você acabou de dizer.

- E o que aconteceu depois?

- Despedi-me. Disse para me ligar quando resolvesse tudo, ainda que em mim houvesse um peso de uma bigorna nos ombros. Por fim, quase noite, ainda no caminho para casa de minha irmã, verifiquei meu celular e havia uma mensagem enviada há horas atrás por ela. O marido dela havia arrumado uma oportunidade de emprego para mim. Precisamente ele tinha anotado o número de um cara que era só ligar naquele dia mesmo que ele arrumaria uma vaga. Não acreditei. Chegando na casa dela, a encontro em prantos. Chorando de escaldar o corpo todo. Perguntei o que havia acontecido. Ela me disse que o marido havia sido assaltado e espancado. Roubaram-lhe celular e tudo. Seu choro dividia-se em muitas vertentes: desde o marido quebrado no hospital, até me ater que o contato para o serviço estava naquele celular. E somente o marido dela poderia me indicar a esta pessoa.

- Quanto desencontro! E acharam o assaltante?

- Lembra que te disse que o ônibus que eu havia pegado bateu e todos os passageiros desceram?

- Não me diga que o cara que matou seu irmão foi a pé, encontrou seu cunhado no caminho e fez isso tudo a ele?

- As coincidências não dão sossego nem nas piores horas. E nem os desencontros.

- De novo eu não consigo acreditar. Tua vida neste dia foi de uma intensidade inigualável. 

- Eu vivi o suficiente para me encontrar num tiroteio de desencontros. Mais ou menos como inspirar um desejo e em seguida expirar não consegui-lo. 

- E os outros próximos dias? Como ficam? 

- Com excesso de inspiração. 


Nosso primeiro pum


posted by Tiago Peçanha

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Completaríamos seis meses juntos em Outubro. Nem parecia. O tempo voa e a gente nem se dá conta. Olha uma vez pro calendário e lá está Julho. Vira, dá uma volta na rotina, olha de novo e lá já está no finalzinho de Setembro. Parecia até o tempo que eu passava com ela: mais rápido que salário indo embora depois do quinto dia útil. Falavam que isso era a tal da intimidade. Não tão completamente, mas eu bem que concordava. Falo isso porque a gente nesse pouco tempo já tinha contado muita coisa um pro outro. Já tinha dividido ronco em dia que encheu muito a barriga e já viu um mais depilar a laranja do que propriamente cortá-la direito. A gente compartilhava histórias e todo o seu escambau, só não tínhamos compartilhado ainda uma coisa: um pum.

Ela era bem educada. Serena que nem um bem-te-vi tomando água numa pocinha em cima duma taioba. Eu desconfiava até se ela já tinha arrotado em público ou pelo menos em casa. Não, não combinava com ela. Nem uma coçada naquela durinha e ressecada meleca no cantinho inalcançável do nariz. Isso que me dava amor por ela: ser elegante na sua maneira, sem forçar, ou fazer carinha de nojo pro meu frango a molho pardo.

Mas se eu fosse um dia presenciar uma cena inescrupulosa dela, que fosse uma coisa mais grosseira, mais exagerada. Olha só, não que um pum tenha mistério, temos anatomicamente a obrigação de colocá-lo pra fazer sua valsa no ar, mas comigo não tinha meio termo. Eu olhava pra longitude que nossa relação se propunha e nela eu via que o exagero não somente se apresentava como melhor opção, mas também como necessidade.

Combinamos um dia de assistir um filme juntos. Filme, esse eterno pretexto pra qualquer intimidade fazer-se intimidade. Nem me lembro qual escolhemos, mas decidimos por um jantar antes das exibições. A gente preferia comer antes de assistir. Paradoxalmente também éramos próximos.

Adocicava meu amor quando ela me via de avental desses que cobrem o botijão de gás do frio e tinha nos olhos o brilho de quem amava aquela marmota toda. Não obstante, nem quando meu cabelo fedia a molho de tomate com cebola a assustava com um beijo em minha nuca. A nossa intimidade permitia cada coisa que só vendo.

Terminei a preparação e sentamos sem estar a luz de velas. 

- Vinte e cinco ovos de codorna. Meu irmão comeu hoje. Vinte e cinco, acredita?
- E você?
- Vinte.
- E não deu nada? Sei lá, um rebuliço?
- Sabe aquele tremor que se ouve antes duma avalanche? Então, aqui tá assim. Eu deveria ter comido só uns dez.
- Nem vai aguentar comer meu macarrão com atum, né?
- Dou conta e ainda peço bis.

Ela se remexia muito. Parecia inquieta com alguma coisa que não somente sua barriga. Talvez fosse vontade de mim. Amo quando ela brinca de danada. Mas não era.

- Amor... sabe quando tu ouve um barulho fininho? Raso? Parecendo quando abre só uma gretinha da porta, sabe? Quando você tá enchendo um balão e sem querer solta a boca dele um pouco? Aquele barulhinho?
- Tentando imaginar.
- Quem sabe faz ao vivo, não é assim que dizem por aí? Desculpa, mas vai ser assim.

E ela soltou. De acordo com a descrição. Um peido leve, tímido. Eu falei peido agora. Já criei intimidade até com quem me lê. Mas eu gostei que ela apresentou o pum à plateia.

- Sua vez, amor.
- A gente tá numa competição?
- Não sei, só sei que não seria legal eu ser a única hoje. 

Continuamos nosso programinha no estilo mais conveniente possível. Deixei no ar, junto com o dela já disperso, o mistério de quando sairia o meu.

Deitamos nos três colchonetes empilhados com uns quatro edredons e ligamos os aparelhos. Deu nem quinze minutos de filme e já era mão lá e mão cá. A gente nem prestava atenção na TV. A gente punha a mão e fazia carinho em tudo quanto é lado. Quando minha mão deu de encontro com uma nádega dela, estava até me sentindo um sambista judiando dum pandeiro. Ela foi deslizando as unhas pela minha barriga e foi nessa hora que senti abrirem as portas da represa. Consegui ouvir coisas na minha barriga que faria uma vítima de deslizamento de terra sair correndo. Se fossemos para os finalmente, era melhor estar com ela limpa e vazia.

Fui até o banheiro. Esvaziei o congestionamento, engatei a marcha e fui pro segundo tempo.

Emboquei-me no edredom e fui brincando de escalar o corpo dela apenas usando minha língua como suporte. Quando atingi a linha do equador de seus seios, ela me suspendeu rapidamente e me aplicou um beijo intenso. Logo após, apertou forte minhas costas e me juntou ao seu corpo. Pronto. Foi o aperto necessário para a bola estourada espirrar o resto de ar dentro de si. O problema é que ele saiu sorrateiro. Daqueles peidos ninja, sabe? Aquele peido gambá: que chega sorrateiramente no lugar e você só percebe que ele está ali pelo fedor? Foi assim.

- Amor, sabe aquelas mulheres havaianas que ficam abanando aqueles carinhas ricos deitados na rede?
- Sei.
- Tente imitá-las agora com um edredom.
- Não pode ser. Eu nem ouvi.
- Vai. Sacode isso aí. Sacode feito uma bandeira hasteada num dia ventoso.
- Isqueiro, luz, essas coisas. Pelo amor de Deus, nem ouse ligar agora.
- Meu medo é atrair urubu e não saber como espantá-los.
- Percebeu? 
- Por que a gente não se permitia a isso antes? 
- Olha, se eu der mais uma abana...
- Sim, sim, sim! Nem por misericórdia levante esse negócio. Mas eu me senti livre. Parecia uma coisa, não sei, que me enclausurava. 
- Voa, passarinho! Voa pra esse céu de metano.

Eu sabia, apesar de tudo, que intimidade constrói-se, constante e irreparavelmente, de forma harmônica. Ao passo que uma forçada de barra soe sempre invasiva, um consentimento ou uma acontecimento corriqueiro abrandam, assim por dizer, mais ainda esse alicerce que a partir dali tomamo-nos por montar.   

Sobre amores e otimismo


posted by Tiago Peçanha

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Otimismo é assumir que, independentemente de circunstâncias, entraves e dificuldades, haverá um jeito da expectativa dissipar-se de si e tornar-se algo concreto. Ele é, também, mais ou menos uma felicidade presente em uma forma substancial de um ideal. O otimismo apresenta-se como segurança, como fulgor inspiratório para chegar lá, para fazer-se valer o pensamento positivo. Juca era otimista. O “vai dar certo” não saía de seus pensamentos, muito menos das sobras de sua memória. Pensar que não seria do modo expectado para ele era como aquele imprestável resto de gasolina vazando pelo cano do carro a viajar.

Juca, além de tudo, era também romancista desses mais arcaicos. Guardava no cabelo um brilho intenso de laquê, do corpo o perfume se sentia em outros continentes, na vestimenta só se via amassada a blusa pra dentro da calça combinando com o terno-cor-de-azul-fumê. Era assim que Juca ia nos primeiros encontros. Uma figura elegante trazida dos anos setenta, mas com alma moderna.

Neste dia, Juca estava sentado na mesa quarenta e sete. Combinara de se encontrar com a moça que lhe deu o simples prazer da conversa despretensiosa e do chamego de querê-la mais.

Ela, formada em segurança do trabalho, era auxiliar de um engenheiro civil recém-chegado na cidade. Juca, assistente social, fazia visitas rotineiras para recolher doações mensais daquele lugar para sua instituição. Ela o atendia sem distanciar os olhos. Falava pausadamente e fazia do português a língua mais linda dessa América. Era dona de uma personalidade forte e a maturidade era como charme de um blues naquele recipiente de desejo. O convite para conhece-la fazia-se inevitável. Convidou. Ela disse “A gente combina assim: espere no novo Bistrô que abriu recentemente na Rua Adenor Estevam, na Avenida Blumenau Eustáquio. Posso te surpreender”.

Para um saudoso otimista, um prato cheio para devorar instantaneamente sem deixar sujar os lábios.

E Juca esperou.

Sentado no lindo bistrô italiano, esperou. Ansioso, impaciente, mas esperou.

Ele disse para ela que estaria lá quinze para as nove da noite. Já passava das dez. Mas Juca acreditava. A moça iria aparecer. Eles teriam um jantar daqueles que a comida seria apenas cenário, mas os diálogos e a troca de paqueras a ópera da noite. Pediu outra taça de vinho. Dessa vez a virou completa e rapidamente. O nervosismo estrangulava sua paciência. Com seus sapatos previamente engraxados ensaiava um sapateado. Ajeitava o paletó. Espiava pela janela e não enxergava a moça chegando em nenhuma maldita esquina.

Dez e vinte e cinco. Nada. Juca, na quarta taça de vinho, esboça um desespero. O otimismo ainda existia. Ela viria, ele tinha certeza, ele desejava, ele precisava. Juca tinha tanto pra dividir com a moça. No dia que combinaram de se encontrar Juca pairou em nuvens azuis de esperança e como uma gaivota voava por milhares de possibilidades de lugares assistindo a vida ser como ela é, ver lá de cima a história de patrimônios da humanidade que poderiam visitar e sentir o mundo a dois. Mas a moça não aparecia.

Estava insuportável. Já era quase onze e meia. Todo o seu ideal de otimismo descia como um pequeno restante de areia numa ampulheta. Questionou-se se valia a pena ser assim. Indagou se tivesse esperado menos, se soubesse que uma recusa ou um não vir seria absolutamente algo esperado, talvez neste momento não estivesse como estava. Quando uma fatia pequena de pessimismo lhe foi servida, a degustou e dela remeteu-se um raciocínio: do questionamento sobre a suposta aceitação do convite. Ela disse “posso”, algo que sugere possibilidade, não certeza. E mais ainda: quem tem absoluta convicção de sua resposta não usa “surpreender” em sua frase. Naquele momento o otimismo se esvaiu. Escorreu como sombra pelo vale das trevas e se perdeu como o voo de uma abelha numa tempestade.

Juca lamentou mais pelo fato de perder uma ótima possibilidade de conhecer alguém que fosse força e direção suficiente em sua bússola. No pensamento prescrevia uma nova possibilidade e a teve naquela variação de como saber nadar e se divertir em novos mares. Ela era como ganhar um estojo de canetinhas e uma cartolina branca.

Não aguentou esperar mais. Foi até o caixa. Perguntou se eles aceitavam cartão de crédito. Gentil, a atendente disse que a maquina estava em uso em outra mesa e que ela já voltaria. Juca aproveitou para ir ao banheiro. Quando voltou e ajeitava suas calças, ouviu de longe a voz da moça. Seu coração faltou só dar um salto olímpico de seu corpo. Olhou ainda que distante e percebeu que era ela mesma. Foi andando devagar e de repente viu que um rapaz chegou perto dela e colocou a mão em sua cintura. Ele pediu pela mesa quarenta e sete.

Juca abraçou de forma intensa o pessimismo e pensou que já não era possível mais. Ela fez tudo direitinho e de forma sútil para mostrá-lo que era comprometida e ele teria de engolir aquilo tudo a seco, ainda que questionasse suas deduções, pois, se tratando de uma pessoa madura, aquilo não fazia o menor sentido, ou até poderia: se ela sentisse que sua bondade não fosse merecedora de uma negação ou muito menos seu otimismo de conhece-la fosse algo tão facilmente ignorável. Sentiu ódio de seu espírito otimista e desejou enforcá-lo em praça pública. Questionou seus métodos de pensar positivo e de fazer de suas expectativas algo que seguidamente almejaria que daria conta de conquistá-las. O otimismo, segundo Juca, trouxe-o a indócil experiência de frustração. Não saberia se depois daquele dia ele continuaria sendo como era. Embora que abandonar seu estilo de toda uma vida anterior seria abraçar uma ideia de imediatismo. Mas era um ótimo ponto a se pensar.

Quando foi até o balcão para acertar a conta, timidamente cumprimentou os dois. Ela, eufórica, o cumprimentou:

"Não disse que te surpreenderia?"

"Só não esperava que fosse tanto." – sem graça, abaixou a cabeça.

"Desculpa o atraso. Mas é que eu discuti muito com o meu irmão ciumento e só cheguei ao acordo de que poderia vir se ele viesse junto. E ele veio."



Impossível


posted by Tiago Peçanha

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Queria falar do impossível. Queria entender como ele próprio se define assim. Entender sua semântica e ir além de sua representação. Dissecá-lo como se estivesse numa aula de biologia e ver por dentro seu funcionamento ou despedaça-lo como se fosse um diamante e analisar seus cristais. Entendo somente que, em termos definitivos, sua significação dá-se justamente por sua diversidade.

A ideia de impossível é aplicada, por exemplo, se o objetivo traz no entorno a insuficiência de materiais para ser completado. O impossível pode também tomar a forma de uma via sem volta: quase como atravessar uma pinguela e durante o processo as madeiras caírem. O impossível, às vezes, é um desejo e por só aquele desejo assim será para sempre, sem conclusão ou satisfação plena. O impossível, dessa forma, é nitidamente um naufrágio de ambições de ideais.

Ao apresentar um caráter irreversível, o impossível não somente compreende um vazio no ser, como também este mesmo vazio ramifica-se em mais vazios em outros impossíveis. A união de vazios atina para um buraco infinito ou estar suspenso no ar sem estar voando e sem conseguir ver o chão. Quase como um rapaz gordo que insiste no convite à moça mais bela e é recusado em todas. Porque não só basta a impossibilidade da conquista, mas também a impossibilidade de ser idealmente como exigem os padrões de sociedade e suficientemente atrativo para aquela mulher. O impossível varia, mas não vacila. O impossível oprime, mas não alivia.


O impossível compreende, assim, uma não-variação no que se refere a ser contrário à ele, mas sim atingindo um estado concreto, absoluto, uma parede inquebrável. Ele pode sim apresentar uma brecha para uma opção de reversão, no entanto, embora não tão obstante, uma alma plena de razão entende do subterfúgio de abraçar uma ideia de escorregar-se de um sofrimento e não ser assim.