Rua dos meus olhos


posted by Tiago Peçanha on

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Um menino. Diferente do comum. Tinha o rosto perdido. Parecia procurar por algo e não encontrar nada. Depois de muito tempo percebendo a presença constante e a parada estratégica do garoto em frente a rua, uma moça que morava lá em seu fim não hesitou em perguntá-lo:

- Olá, menino, me desculpe por tirá-lo do seu sossego, mas por que você fica parado em frente essa rua a encarando com os olhos perdidos?

O menino arregalou os olhos, os regou com gotinhas de lágrimas e abaixou a cabeça. A moça, sem entender nada, voltou a perguntar:

- Olha, menino, se o incomodei, me desculpe. Não era a minha intenção. É que esse seu costume de sempre parar aqui em frente e olhar para a rua me comoveu.

Ele novamente não disse nada. Intrigada, a moça pegou em suas mãos e disse com a voz mimada:

- Vai. Solte as palavras. Fale comigo. Fale, por favor.

O menino apertou forte a mão da moça em zelo, parecia inseguro mas cheio de si, e finalmente respondeu:

- Encaro essa rua pois foi exatamente aqui que iniciei uma grande paixão.

- Como assim?

- Aqui ela me mudou. Aqui encontrei minha versão feliz. A versão sorridente de uma alma que fora daqui era perdida em solidão.

- Mas por que passar todos os dias e encará-la?

- Porque ela ainda não é minha, mas ainda vai ser. Eu espero.

- Quem? Uma menina? A paixão?

- Não, você. 

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