domingo, janeiro 27, 2013

Neblina da alma




O frio do fim da madrugada. As nuvens cinzas. A neblina em paisana. Chovia, mas timidamente. 

Eu nem sentia os pingos. O vento se fazia presente na forma mais branda e contínua de sua natureza. 

Meu corpo planava pela rua. Me sentia num misto de estase e melancolia. 

De um lado, bem lá no fundo do meu ser, um súbito pressentimento de que algo não me parecia certo; do outro lado, algo parecia.

A minha casa estava longe. A minha dor era enorme. 

Minha cabeça não suportava a pressão de pensamentos indo e vindo. Ela doía. Muito. 

Cheguei a puxar meus cabelos semi-molhados para trás. Eu soava frio. E soava bastante. 

Cadê minha casa? Por que as ruas estão tão extensas? Por que meus pés estão pesados? Por que essa sensação de querer vomitar a alma?

As ruas vazias. Onde está todo mundo? 

O que estou fazendo a essa hora andando sozinho por essas ruas abandonadas? Onde estão as cores das pessoas? 

Minha casa estava próxima. Senti mais dor. 

Encostei-me na parede. Parecia que não aguentaria chegar. Sentia-me fraco. 
Não desisti.

Sabia que chegando em casa meu corpo receberia o prêmio da maciez de minha cama e de algumas aspirinas.

Cheguei.

No noticiário: um número elevado de mortos em uma tragédia no Rio Grande do Sul. A tristeza se fez presente. 

Uma lágrima, que ensaiou cair quando senti não ter forças para chegar em casa, escorreu pelo rosto cansado e desgastado. Cai de pranto. 

Pensei nas famílias. Poderia ter sido eu? Poderia ter sido você? Poderia ter sido nós? Pensei nos meus familiares preocupados pela hora que cheguei. Me rendi a ser inconsolado. Me senti impotente.

Corpo e alma se desligaram. 

O domingo não era colorido. E assim se fez de fato pelo seu restante. 

3 comentários:

  1. "Me rendi a ser inconsolado. Me senti impotente." Eu também, Tiago.
    Fiquei imaginando os pais desses jovens esperando que eles chegassem em casa como os meus fazem. Fiquei pensando na tristeza desses pais por saberem que eles jamais voltarão. Li sobre os celulares que tocavam insistentes sobre os corpos agora silenciosos. E chorei. Coloquei-me no lugar de quem estava desesperado por salvar a vida. Senti-me sufocar. E chorei.
    Que os corações das famílias sejam confortados.

    ResponderExcluir
  2. Fiz o mesmo, Dani.

    E faria mais vezes.

    ResponderExcluir
  3. É tudo muito triste. Torço pra que nunca mais eu veja algo parecido :(

    Espero que as nuvens cinzas se tornem azuis novamente... O mais rápido possível. ♥

    ResponderExcluir