Neblina da alma


posted by Tiago Peçanha

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O frio do fim da madrugada. As nuvens cinzas. A neblina em paisana. Chovia, mas timidamente. 

Eu nem sentia os pingos. O vento se fazia presente na forma mais branda e contínua de sua natureza. 

Meu corpo planava pela rua. Me sentia num misto de estase e melancolia. 

De um lado, bem lá no fundo do meu ser, um súbito pressentimento de que algo não me parecia certo; do outro lado, algo parecia.

A minha casa estava longe. A minha dor era enorme. 

Minha cabeça não suportava a pressão de pensamentos indo e vindo. Ela doía. Muito. 

Cheguei a puxar meus cabelos semi-molhados para trás. Eu soava frio. E soava bastante. 

Cadê minha casa? Por que as ruas estão tão extensas? Por que meus pés estão pesados? Por que essa sensação de querer vomitar a alma?

As ruas vazias. Onde está todo mundo? 

O que estou fazendo a essa hora andando sozinho por essas ruas abandonadas? Onde estão as cores das pessoas? 

Minha casa estava próxima. Senti mais dor. 

Encostei-me na parede. Parecia que não aguentaria chegar. Sentia-me fraco. 
Não desisti.

Sabia que chegando em casa meu corpo receberia o prêmio da maciez de minha cama e de algumas aspirinas.

Cheguei.

No noticiário: um número elevado de mortos em uma tragédia no Rio Grande do Sul. A tristeza se fez presente. 

Uma lágrima, que ensaiou cair quando senti não ter forças para chegar em casa, escorreu pelo rosto cansado e desgastado. Cai de pranto. 

Pensei nas famílias. Poderia ter sido eu? Poderia ter sido você? Poderia ter sido nós? Pensei nos meus familiares preocupados pela hora que cheguei. Me rendi a ser inconsolado. Me senti impotente.

Corpo e alma se desligaram. 

O domingo não era colorido. E assim se fez de fato pelo seu restante. 

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