Entra aqui no elevador


posted by Tiago Peçanha

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O lugar que eu trabalhava era enorme. Era entrar naquele estabelecimento e sentir que um labirinto pode ter forma de um prédio. Oxalá com seus 30 andares e um punhado de escadas que, para mim, eram as paredes que nos encurralavam e nos engoliam na rotina. 

A minha sala ficava nem muito em cima e nem muito embaixo. Um pouquinho pra lá da metade.

Pra chegar era um Deus nos acuda, nos dê perna, nos dê água e nos dê um teletransporte. É, às vezes eu apelava com aquele cara lá de cima. Por sorte ele não apelava comigo. Ou apelava. Se o sinônimo disso fosse subir todos os dias aquelas escadas de piso de marfim amarronzado que camuflavam com o meu sapato desgastado. 

A subida era sempre sangrenta. Eu subia sozinho. Dava a liberdade para as escadas ouvirem meus pensamentos. Também para responderem, ouvirem minhas reclamações e dividirmos histórias, se é que eu me permitia a tanta loucura.

Escadas não são SAC. Mas eu fingia que eram. 

“Por que você não pega um elevador”, dizia a Vivian, vizinha da minha sala. “Toda vez que chego e tento entrar, ele está lotado. Eu desisto. Vou para o meio natural. Se é que as escadas são um meio natural”, respondia. Eu não sabia se era uma sina ou uma falta de sorte, mas sempre que eu chegava e tentava subir pelo elevador, ele sempre estava abarrotado de empregados bem vestidos de smoking e com aquelas gravatas que pareciam telhas de zinco novas colocadas abaixo do pescoço de tanto que refletiam a luz. Por muitas vezes eu cheguei a acreditar que o meu despertador biológico era simétrico ao de todo mundo para sempre chegar lá no mesmo horário e ele estar lotado. Nos dias em que eu estava com muito sono eu esperava a porta abrir, olhava para aquele cubículo e apenas abaixava a cabeça. Mandava tudo que vinha a minha mente à merda. Claro que não literalmente, eu não era louco. Podia estar adiantado ou atrasado, no horário ou fora do horário. Não adiantava. Ainda bem que eu não tinha uma metralhadora. Se bem que seria útil. 

“Entra aí, cara”, berrou uma moça num certo dia. “Não, obrigado, vou pelas escadas. Tenho fobia com lugares apertados”, respondi, ironicamente, sendo que minha sala era tão pequena quanto aquele elevador e eu não reclamasse tanto. E a moça era insistente por todos os dias. Não fosse aquela beleza diferente do de costume, não sei qual seria meu comportamento frente à ela. Eu tinha que fazer o meu charme, ainda que isso às vezes me faltasse.

Entrar naquele minúsculo pedaço de espaço era como se eu fosse a ultima peça do quebra-cabeça. Só que ali eram quebra-cabeças montados em cima de quebra-cabeças. Aí fica difícil.

Subir as escadas ficou tão rotineiro que eu já as tratava como uma amiga. É claro que uma amiga que nunca me respondia, ou enviava mensagem, ou saia para tomar um sorvete e jogar milho para pombos. Entretanto era uma amiga que me ouvia. Coisa que ninguém ali se disponibilizava. 

As escadas praticamente eram o escape da monotonia do meu trabalho, mesmo que fosse um exercício para minhas pernas e fulgor do meu cansaço. 

Eu me acostumei com elas. Pobres escadas.

Virou um desafio. “Vou subir. Vou chegar num horário nada a ver. Um horário que ainda não fui. Não é possível que essa porcaria estará cheia. E se estiver, eu mando banana. Agora sem medo.”, dizia para mim mesmo numa coragem que não era de minha característica. Era tímido apenas em não querer aparecer muito em público para não denegrir minha imagem que nem era muito conhecida. Quiçá imaginava ficar conhecido como ‘’o cara que mandou banana para um elevador”. 

Quando cheguei, apertei o botão de subida. A porta se abriu. Para minha surpresa e pelos batuques e repiques que meu coração fanfarreava no meu peito, o elevador estava praticamente vazio. Só havia uma pessoa. Aquela mesma moça que me convidou a entrar em outros dias. “Escadas, me ajudem aqui: é essa aquela moça que lhe confidenciei uma espécie de admiração outra dia?”, pensei na hora. Entrei. 

Ficamos calados. 

“Você é um grande mistério”, disse ela navalhando o silêncio. “Por que sou um grande mistério?”, perguntei com cara de quem não entendia e levantando uma das sobrancelhas. “Antes, você entrava e conversava comigo e se abria. Comecei até a gostar de você. Mas de repente parou de subir pelo elevador. Você parava em frente, olhava de um jeito muito do estranho aqui para dentro e depois saía. Um completo mistério, não é verdade?”. Naquele instante eu senti como se estivesse com uma batedeira em minha mente triturando todos os meus miolos. Que petecada é essa que ela lançou do lado de cá da rede?

 “Desculpa, moça, poderia deixar um pouco mais claro?”, implorei educadamente. “É como eu já esperava. Você é muito bobo mesmo. Um bobalhão. Bastou eu dizer ‘eu estou realmente te amando’ após nos beijarmos e você fingir ter Alzheimer”, esbravejou, num tom que realmente parecia ser verdade. 

O elevador chegou ao 9° andar. Ela saiu pisando duro. Fiquei onde estava. “Pode ir pela escada mesmo. Pode me evitar. Eu não ligo. É como foi pela primeira vez: essa tua cara de sonso me enoja. Adeus.”, disse apertando o botão. 

Parado, fiz um exame de consciência e tentei me recordar. Pode ser que de fato aconteceram aqueles momentos. Mas eu achava que era apenas alguma história inventada pelas escadas para me reconfortar.

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