Sem razão


posted by Tiago Peçanha

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Um dos maiores prazeres dos meus dias é ir até a padaria comprar o pão das cinco e quinze e conversar com o Seu Tadeu.


Ele é o dono e padeiro. Há mais de quarenta e oito anos manuseia aquele local.


Era próximo daquele senhor. O conheço desde quando era moleque e aparecia com o nariz cheio de catarro, a bola embaixo do braço e os joelhos ralados para pedi-lo um pedaço de broa. Ele, como era de praxe de sua tão elegante educação, doava-me dois pedaços: um para ida e outro para a volta, pois ele sabia que minha mãe horas depois mandaria eu buscar alguns pães como era de costume.


Por anos conservei nossas conversas de terças, quartas e sextas.


Quando pequeno, perguntava como andava a escola e as namoradinhas; quando mais velho, sempre fazendo piadas com futebol, a vida e os amores, ainda que nossas conversas durassem apenas alguns minutos em vista do intenso movimento de pessoas.


Num outro dia, não estava me sentindo bem. Questionava sobre muitas coisas que necessitavam de respostas. Fui até a padaria. Nada melhor que perguntar para o meu querido velhinho e sugar um pouco do longo tempo que ele já viveu por essa terra e coisas que só a vivência saberia dar seus jeitos.


A padaria estava cheia. As pessoas estavam desesperadas pelos pães e famintas pela pressa. Seu Tadeu, com a caneta na orelha direita, o bloquinho no bolso no canto esquerdo do peito e o palito de dente rolando de um canto da boca até o outro, tentava atender a todos sempre não deixando escapar o estresse de gritos de canto a canto pedindo quantidades e variadas combinações de deliciosas refeições.


Chegou a minha vez.


Disse olá. Seu Tadeu olhou para baixo sem me dar resposta. Ergui minha mão para cumprimentá-lo. Ele nada fez. Se virou de lado. Chamei mais alto, quase que acenando. Nada. Uma outra atendente bem proxima veio até mim e perguntou o que eu queria. No fundo uma vontade insana de pedir uma explicação para o que estava fazendo o Seu Tadeu, querida moça. Mas, olhando por cima dos ombros dela, o vi indo para os fundos.


Não entendi muito o ocorrido e queria saber os motivos do Seu Tadeu. Eu precisava dele por um momento.


Segui meu dia. Dessa vez indo até meu trabalho para recolher alguns laudos que há dias não recolhia. Eu já tinha noção de que o pessoal estaria irritado comigo – e subscrevia em meus pensamentos desculpas que eu sabia que não seriam necessárias para esconder minha falta de responsabilidade.


Na porta do consultório cento e dezenove, Kelly aparece com o corpo dividido entre uma parte dentro e outra fora, com a caderneta na mão e a cabeça repousada na quina da porta.


Das minhas colegas de trabalho, Kelly era a que tinha o olhar e a personalidade mais fortes. Principalmente o olhar. Eu me sentia intimidado quando conversava com ela. Sentia aqueles olhos meio puxados e de cor de côco me instigando a um infinito modelo de persuasão e charme.


Kelly era reticente e difícil. Eu convivia com isso. Mas não entendi o motivo de estar daquele jeito. Sabia que pessoas duras também têm seus momentos de fraqueza, mas vindo dela era algo que me surpreendia e de certa forma trazia um lado dela que eu gostaria de viver e ver mais de perto.

Me aproximei e dividimos um pouco de silêncio. Ergui minha mão para que ela me desse a dela e eu pudesse dizer que tudo ficaria bem. Com a mão frouxa e duvidosa, deu-me um aperto anêmico. Não senti a pressão de seus dedos e nos seus lábios eu não vi um desenho de alguma palavra querendo surgir. Ao soltar minha mão da dela, ela caminhou devagar até a mesa, deixou a caderneta, olhou devagar para mim, suspirou e saiu da sala sem dizer uma palavra.


Não sabia o que ela pensava de mim naquela hora. Não fui atrás. Peguei meus laudos que ali mesmo estavam e decidi ir embora.


Não sou de atalhos, mas precisava chegar rápido em casa. Desci pelo morro da Capelinha de Bom Senhor da Penha, onde a rua era toda revestida de pedras e com um espaço amplo que carros não subiam. Andava a passos largos.


Ninguém estava descendo, mas tinha gente subindo. Estava na contramão de todos.


No canto que caminhava e na direção de meus passos, estavam parados conversando Gilson, Ferdinando, Marcela e... Mariana.


Mariana. Ela. Mariana. A bela.

Por muito tempo Mariana foi uma das minhas impossibilidades favoritas. O fato de ser tão difícil me aproximar dela sempre me trazia a um inescrupuloso mergulho em um desafio sem premiação. Mas o miserável fato de apenas admirá-la era um pequeno conforto numa alma pobre de esperança, ainda que soubesse que tudo aquilo não passasse de uma perda de tempo de minha parte.


Chegamos a nos conhecer. De uma maneira que o destino fez questão de evidenciar minhas características e deixar claro que meu pessimismo não passava de um infantil escudo de meus sentimentos frente ao meu coração, mas que também construía uma barreira entre eu ser dela e ela ser de mim. Estabelecemos uma relação onde eu me via obcecado e ela vitima dos meus carinhos.


Ela era compreensiva. Não me tratava mal. Zoneou-me na amizade sem que meus olhos cegos pudessem ver, mas minha ilusão de pelo menos tê-la assim já era motivo suficiente para comemorar.


Chegamos a um ponto onde ela se via tranquila a dividir tudo que a afligia, a deixava sem um norte ou ferroava a bolha de sua autoestima. Passei a ser um escoro para seus momentos de cansaço físico e mental.


Fui até ela.


Ao chegar perto, todos se calaram. Gilson olhou-me com a cara fechada de cima a baixo. Ferdinando e Marcela fizeram o mesmo. Mariana, a ultima a virar vagarosamente para ver quem era, deu um passo leve para trás, colocou uma mexa de cabelo na orelha esquerda, franziu os lábios e não olhou em meus olhos. Estiquei minha mão na tentativa de cumprimentá-la. Ela nada fez. Em silêncio, todos acenaram uns para os outros e se despediram.


Fiquei sem entender a situação, mas instigado com o silêncio.

Mariana e meus outros amigos fizeram a mesma coisa que Seu Tadeu e Kelly.


E eu me peguei aflito para saber por que eles estariam em silêncio para mim naquele dia. 


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