Questão de sorte


posted by Tiago Peçanha

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Ele não dava sorte.

Tinha gente que costumava em sua primeira tentativa conseguir. Embora pudesse ser competência e percepção, não era submetido a ele simplesmente ignorar a sorte.

Se por um lado coubesse um pouco de análise, sorte e nem muitos menos competência foram de encontro a ele. Na maioria de suas tentativas as circunstâncias pendiam para o lado frustrante da expectativa, aquele mesmo onde a pá tenta cavar o piso duro. Ainda que em todas as suscitantes percepções puderam promovê-lo ao pensamento de sim, de vai, de deu; por aqui: de não, de novo, de tentar.

Ao que fazia trazia sentimento. De corpo até alma. Não fora da estrada: dentro, constante, desmodado. Entretanto, não reduzia-se à apenas isso. Ia mais além. Se o que sentira e se o que planejara pudesse surtir efeito, por que não mais? Por que não ir lá na ponta do pé de manga pegar a mais madura? Por que não ir lá ver no abismo se ele tem mesmo o cheiro de morte ou cheiro de vazio?

Ainda na aresta de seu olhar, de longe avistara o outro. Sorridente, pois esperou o tempo certo para tentar num dia que não tentou, por pensar que seria, que daria, que era tempo de pronto e foi. Feliz dizia o outro pelos arredores de seu corpo todo. Ora por tanto e tanto quanto justificável. Contudo, para ele, o outro era um molde.

Mas ele não dava sorte.

No caminho por sua rua, lá de longe mas tão cá nos pensamentos: ela, andando em direção oposta, do outro lado da rua e do outro lado do peito, também. De encontro aos olhos quando se viram apenas o instante de congelamento. A ele, surpresa. A ela, não sabia. Ir lá ou ficar aqui? Seria a hora certa? Não seria, pensou. Faltava sorte. Mas ela acenou e sorriu e veio. O despiu de tudo que era ali por momento: um nada cheio de um instante de desvanecimento. Ela o abraçou. Seu corpo derreteu. Sua boca amoleceu. Seu peito disparou. Seus braços grudaram nas costas dela e dali não queriam sair. Um abraço de um tanto muito bom. E por só ficou no cumprimento. Ali, só entreolhares. Pra que palavras? Bastou-lhe tudo aquilo só. Ela. Ó, ela. Foi embora.

Na manhã seguinte, ao acordar e olhar, estava, como um quadro na janela, um dia nublado. Uma grata surpresa. Ele aparecia vez ou outra, mas a ele faltavam detalhes. Dia bom. Dia para ele. Na horta, tudo já preparado como era de costume. Era seu dia. Dia de tentar. Parecia que ia. Finalmente parecia. Os dias nublados eram tão esperados quanto um arroz soltinho no almoço.

Lá estava guardado dentro de um local banhado com raios de sol. Pegou, acariciou e colocou em um vaso num canto estratégico da horta, assim como religiosamente, por assim dizer, não se desfazia do hábito.

E choveu.

Finalmente, choveu.

A chuva entrou pelo vaso e sugou e deu suspiro a toda a alma do buquê.

O buquê era para ela. Prometera a si que só o entregaria depois que o mesmo tomasse um banho de chuva. Ela, a chuva, tão rara quanto seu otimismo. O buquê estava em estado de quase querer ficar murcho, pois estava ali a mercê de uma oportunidade, de uma sorte. E ela chegou. Ele ganhou vida, ganhou esperança, ganhou libido.

A ela ele entregaria. Em seguida, um pedido: “Sai comigo, querida moça?”.

Se o sucesso viria, o futuro diria.


Mas é apenas uma questão de sorte.  

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