Chamada


posted by Tiago Peçanha

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Mais de duas horas passadas. Nada.

Colocou-se na posição de medir o tempo em vista de tentar controlar a ansiedade. Mas ele demorava a passar. Quando se espera ele demora. Como articulava, era estranha a relação entre demora e tempo. Um bem que contribuía com o outro. Qualquer indivíduo que estivesse adjacente à eles seria nada menos que designado à amargura da expectativa.

O celular tinha seus olhos arregalados e atentos como vigias: quase como se fosse um guarda de segurança de vinte e quatro horas por dia. Qualquer movimento estranho ele tinha de ir lá e verificar. Mas eram raras essas vezes.

Em qualquer lugar que estivesse tentava se controlar para não bisbilhotar mesmo quando ele não dava sinais de que era necessário ir até ele. Pegava. Checava. Novamente, nada. A escolta para com ele mais era dez segundos de atenção para as obrigações; dois minutos ou mais de um olhar minucioso para sua tela. Sempre um vai e vem de uma esperança vã e uma esperança por algo. Algo, este, que de repente poderia surgir. Contudo, estava mais para um “quem sabe”.

Ainda que enigmático, aquele algo despertava interesse, se fazia necessidade, se fazia obsessão. Esperava.

Vibrou.

Naquele momento estava na sala. Tropicando e sedento pela novidade, veio verificar.

VIVO BENEFÍCIOS – A cada vez que você enviar a palavra “VIVO” para *865 você automaticamente estará concorrendo a um carro no programa do Faustão”, dizia a mensagem.

Mais uma vez ela, a operadora. A tida como empata foda dos sms, o coito interrompido de uma fantasia por alguma coisa que não aquilo. Se revoltava quando recebia essas mensagens.

“Dias desses eu vou enviar mesmo porque quero ganhar e jogar o carro no telhado da empresa.”

“Esses presos já estão desesperados: se passam pela operadora, prometem carros e fingem sequestros, mas não sabem que de trouxa na história são só eles que gastam os créditos à toa. Ainda que para a economia do morro isso não seja nada.”

Era pouco agradável receber constantemente aquelas mensagens em todos os dias que esperava por outra coisa, entretanto, naquele dia em especial, uma mais importante poderia vir. Ao menos era isso que pensava.  

Porém, o tempo era frustrante no que se propunha: fazê-lo refém do anseio. As mãos tremiam. Roçavam as pernas e praticamente as massageavam. As unhas já nem faziam mais parte da história de suas mãos. Os lábios a pouco de se ferir com as mordidas e recolhidas para dentro da boca. O coração em ritmo de festa agitada. A respiração descompassada que de pouco a pouco dava lugar a um cigarro. A raiva era desenhada nos apertos dos dedos contra qualquer coisa macia. Contudo, não obstante, havia de se preparar. Seja psicologicamente ou para um pouco de se resguardar.

A expectativa era dolorosa: mexia, estremecia, descondensava. De certo modo, não era novidade para quem se submetia àquilo todos os dias.

Novamente, vibrou.

Verificou. Era sua mãe ligando.

“O que foi, mãe?”
“Meu filho, você está bem? Mamãe está ligando para saber como andam as coisas aí em casa. Talvez demore a voltar do serviço, mas você quer que eu leve alguma coisa? Um docinho? Um pedaço de goiabada?”
“Não!”
“Mas você adora tanto uma goiabada.”
“Eu não quero não.”
“Tudo bem. E seu irmão? Ele vai querer? Pergunta ele aí para mim.”
“Ele não está aqui! Tenho que desligar.”
“Ele deve estar trancado no quarto. Ele sempre faz isso! Pergunta! Vai que ele fica com vontade.”
“Tchau, mãe. Não enche. Eu tô esperando uma coisa e você tá me atrapalhando.”

Desligou. Nem esperou o “eu te amo” e o clássico “tenta não dormir tarde para não ficar cansado no outro dia” de sua mãe. De qualquer maneira, a ansiedade fez dissipar até mesmo a educação. Mas era mais importante esperar por aquele algo.

Mais uma hora se passou.

Pela casa, andava de lado a lado. Ia na cozinha. Passava um café. Errava nas medidas. Abusou no açúcar. O café caiu fora do coador.  Suas mãos tremiam insistentemente. Terminado, subiu para o terraço. Olhava para a rua. Olhava para o horizonte. Pressionava os dedos contra a parede. Abaixava a cabeça. Passava a mão por ela. Endireitava a camisa que o sufocava. Bufava. Fingia um grunhido tímido. Desceu do terraço.

Na cozinha, abriu a gaveta de utensílios. A faca parecia tentadora. A pegou. A dedilhou. Contornou por seu pescoço, mas logo percebeu que a hipótese era única e absolutamente estúpida. Ainda assim, perdendo-se num comboio de raiva, a teve no punho e a cravou num dos sofás de casa. De joelhos, chorava. De canto de olho, olhava para o celular.

“Toque. Vibre. Mecha. Remexa. Apite. Faça barulho. Qualquer coisa. Apenas satisfaça minha necessidade e minha curiosidade!”, suplicava.

Deitou no carpete. Encarava o ventilador que morosamente rodeava. Virou de lado e aconchegou sua cabeça com seus braços. Em posição de recolhimento, sentia um frio que só nele se sentia. Era frio da alma. Frio de silêncio. Frio de expectativa. Quando sentiu que o sono se apresentava como melhor opção e seu corpo já se entregava ao sublime sabor de adormecer, um barulho surgiu no quarto.

Vibrou e tocou.

Era uma chamada. Número confidencial. Poderia ser o algo. Era de sua característica fazer isso às vezes. Com o corpo agitado e trêmulo, pegou o celular quase o deixando cair ao chão. Atendeu.

“Alô!”

Nada mais que silêncio. Alguns segundos depois, disse novamente:

“Alô! Alô!”

Havia barulho de gente, ainda que baixinho. Mas quem estava do outro lado preferia um silencio amargo.

“Diga alguma coisa! Fale! Eu não aguento mais essa ansiedade! Eu preciso saber!”

Não adiantava. O individuo do outro lado era irredutível. Torturava impetuosamente.

“Vai, fale logo se conseguiu fazer o que combinamos. Não me deixe nessa agonia. Eu preciso saber se você conseguiu arrumar. Eu já não estou me aguentando de curiosidade. Você conseguiu concertar o carro de minha mãe? Diga que sim. Do contrário estou em maus lençóis. Eu bebi. Ainda bem que consegui chegar tarde em casa ontem e ela não ficou sabendo. Minha mãe não sabe que eu bebo, também. Ela nem precisa saber. Mas me diga logo, vai. Para com esse silêncio. Se você não me disser, provavelmente será a última vez que falará comigo, só para você ter noção do perigo que estou correndo.”

Do outro lado, finalmente um ruído de voz. Trêmulo e repicado, mas apareceu.

“Hum... liguei em anônimo e consegui facilmente descobrir...”

Fez uma pausa dramática e finalmente completou:

“... quer dizer que a todo esse momento era isso que você estava escondendo de mim sua mãe?” 

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