50 tons de beliche


posted by Tiago Peçanha

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Christiano finalmente fechara o aluguel. Vivia ele e mais um colega, o Cesar.

Na casa mal cabia espaço pros dois mais um quarto, um banheiro e uma sala-cozinha. Tentavam se abarrotar naquele imóvel que espremia para caber em suas despesas. O quarto era pequeno, insuficiente para duas camas. No improviso, compraram uma beliche, mesmo após demasiadas divergências a respeito disso.

Ainda que soubesse que a juventude passa um tanto quanto rápida, Christiano era mais recolhido a um espírito de tentar ser alguém bem sucedido na vida. Trabalho, comprometimento e estudos consumiam seu tempo de forma quase que completa. Contudo, seu colega de quarto era o inverso dos polos. Cesar, além de come e dorme, era do tipo namorador, por mais que soasse incrível para Christiano que ele fosse capaz de formular alguma frase sem ajuda de um adulto.

Para ele, os dias mais tortuosos eram os que Cesar levava a namorada em casa. Como inutilmente defendeu a ideia de beliche, não imaginava na época muito antes dele arrumar a namorada que seria submetido a isso e que muito menos teria de aceitar calado, em vista de não haver outro lugar para dormir.

O casal se propunha a situações que até mesmo um livro de Kama Sutra se sentiria incompleto e com inveja do conteúdo. Eram criativos. Entretanto, por mais que parecesse prazeroso para eles, para Christiano não era tanto assim. Quando deitava, esperava sempre pelas frases mais espalhafatosas possíveis.

“Eu gosto é quando você geme feito um porco sendo sacrificado.”

“Deita de bruços, vai, finge que você é um asfalto e eu tenho aqui uma rola-compactador e vou passar por cima de você.”

“Vira o cu para mim, vira, vamos esbarrar o meu “anel” com o teu e fingir que somos os supergêmeos e ativar.”

“Meus dentes são pinos. Agora vem e faz um strike com essas bolas na minha boca.”

“Eu vou masturbar tanto o seu cacete até ele ficar da finura de uma linha de pipa.”

“Isso que você tem não é uma boceta, é um engolidor de push-pop.”

Mesmo que a criatividade do casal fosse impressionante, Christiano não se sentia confortável e conversava com Cesar sobre a possibilidade deles irem para um motel ou coisa parecida. Irredutível, o último se apoiava na ideia de não ter dinheiro e que para Christiano o fardo de toda a situação que viviam explanava aquilo como uma obviedade.

Poderia muito bem dormir em outros cômodos, mas a casa era tão pequena que qualquer coisa dita no quarto ecoava por todos os lados como se fossem avisos de viagens em rodoviária.

A ele, o que sobrou foi ter de esculhambar com o casal: tentar trazê-los a uma situação que a beliche não fosse mais convidativa a outros coitos. Por mais que prezasse pela felicidade de seu amigo, abdicar de sua paciência e de seu sono configuraria um egoísmo consigo mesmo.

Quando a frequência de sexo entre o casal manteve-se constante, Christiano viu ali a chance para tentar botar em prática aquilo que pensara e planejara. O casal chegava às oito da noite e ficava até a madrugada, parando em intervalos esporádicos para recarregar as energias e esfriar as partes íntimas. Intervalos, estes, que possibilitavam eróticos cochilos a Christiano. Mas desta vez os exploraria para melhor executar o plano.

Oito da noite. Christiano estava deitado. O casal chegou.

Empoleiraram-se na cama e deram inicio a selvageria. Cesar parecia estar deitado enquanto sua namorada cavalgava em cima dele.

“É festa de rodeio, não dá pra ficar parado”, cantava ela.

 “Pocotó pocotó pocotó, minha eguinha pocotó”, respondia ele.

No chão e próximo da cama, Christiano pegou um porrete de plástico que comprara numa loja de fantasias eróticas. Com seus quase um metro de comprimento e alguns Kid Bengala centímetros de largura e todo ornado pela engenhosa criatividade dele de tê-lo transformado num dildo-britadeira, o posicionou logo abaixou de onde imaginaria que estivesse o ânus de seu amigo. Ligaria o Taz-Mania, como carinhosamente o apelidou, e vagarosamente penetraria em seu querido amigo. Atento, logicamente, que poderia conduzi-lo a um medo de que todas as vezes que os dois estivessem ali ele usaria seu brinquedinho. Ele muito provavelmente procuraria outro lugar para os dois fornicarem.

Posicionou e ligou. O aparelho vagarosamente rodopiava e arrombava o colchão. Quando finalmente se aproximou do bumbum de seu amigo, a namorada de Cesar deu um grito estridente.

“Vou gozar.”

“Isso, eu sou o Ash e você é meu Squirtle, dá um jato de porra na minha boca, dá.”

A namorada começou a sentar mais forte, a se empolgar.

“Meu Deus! Parece que estou sentando num hidrante! Que delícia!”

“Se continuar assim o hidrante vai estourar e te molhar toda.”

De repente, Cesar começou a inclinar e abaixar as costas batendo forte com seu quadril no corpo de sua namorada. A sequência continuou tão intensa que, num pulo irresponsável, a cama partiu-se no meio e os dois vieram a cair em cima de Christiano.

Com o quarto todo empoeirado e todos tossindo, a namorada de Cesar interrompeu o silêncio:

“O que é isso em pé e vibrando? Será que esse cacete enorme veio do centro da Terra?”

“Amor, nós quase nos machucamos agora, paramos o sexo já tem tempo. Sei que ainda estou duro, mas pode parar de me elogiar.”

“Hum... não gosto quando discordam de mim, mas ao mesmo tempo acho tão sexy. Vem cá mamar minhas tetas sujas de areia, vem.”

Com o porrete em mãos e mais ou menos na direção do peito e deitado em forma de luto, Christiano, despistado e fazendo careta, sorriu, começou a bater o objeto na testa fingindo-se um leve retardado e finalmente respondendo:


“Acho que pra ter sossego eu vou é usar esse 'cacete enorme' pra perfurar e ficar debaixo da Terra mesmo.”

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