Quem dera


posted by Tiago Peçanha

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A moça tinha um costume que só ele sabia identificar. Como bem decorou, ela admirava o pôr do sol. Não era surpresa uma pessoa se maravilhar com um melancólico fim de tarde, mas ela fazia dessa combinação um pouco mais bonita. A moça da sacada, no entanto, não enxergava o seu observar. Embora fosse elegante ser dono do segredo dela.

Ela variava em roupas curtas num corpo entregue ao sublime pedido de refresco. Seus cabelos úmidos e sempre penteados com a ajuda indireta do vento. Além, claro, do rosto livre e sem maquiagem, assim dialogando com a melhor naturalidade de si.

Se encantar por ela era sentir ter algo para amar. Cada detalhe anotado em tópicos de categorias que subdividiam-se à medida que descobria no pouco tempo um pouco mais da querida moça.

Mas só se encantar era pouco. Pensar nela e pensar num futuro juntos era tão bom quanto uma salada bem temperada.

Quando finalmente entardecia numa tarde de uma quinta-feira, inusitadamente  pensou em ir abaixo da sacada no exato momento em que a moça iria até ali e gritar para todo mundo ouvir: “Ei, sem nem te conhecer eu gosto tanto de você.” De certa maneira, se passar por um maluco especialmente para aquela circunstância poderia ser bom, ainda que isso pudesse assustá-la. Ao se posicionar, o tempo fechara e os pingos de chuva esparramaram-se por sua testa em sua cabeça erguida. Ela viera até a sacada, mas para recolher alguns itens e apenas olhou para baixo e o viu declinar o rosto, sentar na escada e observar tristemente as pessoas que passavam.

Relevou, afinal entendia que o tempo não sabia dos seus sentimentos e que sorte mesmo não tivera naquele dia. Mas a semana não era feita de dias – elegantemente, ora, no plural - à toa.

Se na quinta-feira o tempo de repente se entristeceu e chorou chuva no lugar do pôr do sol, na sexta-feira, no entanto, ele preferiu a alegria. Fazia sol de rachar. Era esperado que ela fosse na sacada. Era de bombardear de expectativa. Era de sentir que finalmente poderia propô-la a descer e conhecê-lo, assim mesmo nessa loucura de esperar que deixar o conforto de sua casa para ir até a porta do prédio atender um desconhecido e que esse mesmo desconhecido declarasse um amor platônico fosse irresistível.

Se posicionara no mesmo local do outro dia. Era horário de pico. Era gente pra lá e pra cá a todo momento. Carros buzinando em pressa, caminhões tão barulhentos quanto uma barriga com fome. Ela saiu na sacada. Em sua beirada olhou para o horizonte e balançou os cabelos como se nem soubesse que parecia estar numa propaganda de shampoo. Chamava por ela. Ela olhou, mas não ouviu nada do que ele falava. Ele acenava para que ela descesse e sorria enquanto isso. Continuava e ela apontava para os ouvidos como se dissesse que não estava ouvindo e entendendo. Por mais que fosse uma cena estranha e que estaria ganhando a atenção dela, valeria mantê-la. Chegou até a juntar as mãos uma sobreposta a outra como se pedisse o coração dela. Ela acenou indicando que iria descer.

Quando abriu a porta, irreconhecivelmente se viu paralisado. As mãos não saíram da posição que fizera anteriormente. Com aquele sorriso de derreter as geleiras do frio em sua barriga, ela enfaticamente disse:

- Oi, tudo bem?

Nem uma palavra conseguiu escapar.

- Te vi me chamar e acenar e fazer o possível para descer, me senti sensibilizada, acho que você merece isso aqui.

Seria um beijo? Seria um abraço? Seria um tudo?

Ela pegou nas duas mãos dele, colocou algo entre elas e as fechou, o encarou nos olhos e delicadamente disse:

- Toma esses trocados. Você deve estar morrendo de fome. Eu adoro ajudar os sem-teto que ficam aqui na porta do prédio.

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