Cabine


posted by Tiago Peçanha

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Nevava. O frio doía de combinar com a alma. As árvores gélidas. A grama debaixo da coberta branca e cristalizada. Os grãos de gelo embriagados que do céu despencavam em ziguezague. Os bancos da praça próximos ao extenso gramado com um lugar varrido a mão, afinal, vez ou outra alguém os limpava e os aquecia para assentar ali.

Como era inevitável acontecer, às vezes alguns ficavam livres.

Quando um surgiu como opção, um homem estudou o lugar.

Em uma mão, um maço de cigarro; noutra, um isqueiro. Guardou o segundo no bolso após acender o primeiro e por ali se acomodou.

Os olhos enrugados e vermelhos. Os lábios anunciando um terremoto de tão rachados. Os cotovelos em cima das pernas e o repique na ponta do pé dando o compasso de ansiedade. Olhava para o norte. Permanecia. Assoprava o vapor de frio no ar. As partes do seu corpo não dialogavam. Os braços descompassados; as mãos que erravam suas roçadas; os pés com um para frente e o outro para trás. A tristeza, como uma arte abstrata, pelo seu corpo se rebuscava.

Ao lado do lugar que estava ficava uma cabine telefônica. Pouco visitada, na verdade. A tecnologia invalidou sua importância. Mas ela ainda existia. Melancolicamente falando, ela era como um sentimento de necessidade que agora não é mais necessário. Lembrando, de certa forma, um amor passado que não funcionou.

Olhou para ela. Tragou mais um pouco do cigarro. Respirou. Olhou de novo, dessa vez a namorando de cima a baixo. Do bolso pegou um bilhete que estava acoplado a capinha de um celular. Um número nele estava anotado. Marejou os olhos ao encará-lo. Suspirou.

Da cabine ouviu o chamado. Ela de repente começou a tocar. Quem estaria ligando para uma cabine aleatória no meio do centro da cidade? E por que ele deveria ir até lá atender? Por que qualquer pessoa deveria parar o que estava fazendo para atender?

Insistente, quem ligava persistia que alguém o atendesse. Era clara a necessidade de urgência pelo atendimento, embora que quem passasse ali por perto fizesse-se indiferente a isso.

Entretanto, não resistiu aos chamados e atendeu.

- Alô.

- O que te trouxe a essa solidão?

- É...

- Você está se sentindo sozinho? A solidão é nada mais que a falta do que nunca se teve e que sempre se quer ter.

- O que é isso, afinal?

- Eu quero conversar com você. Você quer conversar comigo, eu sei. Se abrir. Compartilhar o que se passa. Compartilhar o que ficou e não se dissipou em palavras. Você sente necessidade disso. Você sente necessidade de um diálogo, de entender seus dilemas. Pude perceber, se assim me permite a leitura de ti.

- Fui educado a nunca falar com estranhos. E muito me estranha você se importar.

- Se parar para pensar, sempre seremos estranhos a todo mundo, até mesmo a quem conhecemos há muito tempo. Quem unicamente tem liberdade de invadir o teu ser e conhecer a ti como um todo, essa pessoa, meu caro, é você mesma. Somos guardados a nossos segredos e de nossos segredos fazemo-nos estranhos.

- Um estranho dando palpites. Vê lá. Até que ponto você quer chegar nessa conversa?

- Se colocarmos o céu como limite, o universo será apenas um belo papel de parede.

- Tudo bem. Vou me jogar nesse jogo. Por que entende que estou sozinho? Por que está falando comigo desse jeito?

- A alma de um homem solitário se vê em vários lugares, em várias expectativas e em várias instâncias, menos em sua própria felicidade. Teu rosto vago, despassado, distante de qualquer modo de felicidade mais operante, é, para mim, evidente. Em tuas expressões eu pude ver uma alma perdida. Em tua escolha pelo devaneio neste lugar que estava, também.

- Muito me admira essa sua parte poética, confesso. 

- E muito me admira sua admiração. 

- Olha, na verdade minha tristeza ser tão evidente me corrói. Pois é. Mas às vezes me perco nos meus próprios motivos. Nem sei se meus motivos são de propriedade da tristeza, ou se meramente abdiquei de discernir se eles são merecedores disso. Eu só atribui tristeza porque simplesmente ela não me abandona, ela só me convém.

- Se por um lado ela tem uma direção e um motivo, por outro ela esconde – não totalmente - a verdadeira essência e charme do que propriamente ela é: a felicidade só pode ser felicidade a partir do momento que a tristeza existe. Merecedores ou não, eles carregam este fato.

- Então devo entender minhas tristezas como simples trampolins de felicidades?

- Não entenda uma soma como simplesmente uma união de fatores. Entenda que será um resultado maior, de mais ampla proporção. Do tipo de não se abster ao fato de não ter conseguido uma determinada busca, mas que a experiência trouxe-lhe a diferenciar seus métodos de tratativas. 

- Estou instigado com essa conversa. Mas eu queria que fosse possível ser mais do que apenas estou sendo. Tenho sido estranho. Tenho me comportado estranho. Não tenho me reconhecido. Por vezes não consigo sentir a minha essência. Morro a cada vez que me perco no significado da minha existência. 

- A gente vive a ilusão de criarmos um personagem para nós mesmos. Alguém que, quando perguntarem por ti, saberão diretamente sua identidade, suas características e sua história. Para aqui, nessa tua situação, a tristeza unicamente tange pelo fato da perda de algo que teve e da mudança do seu modo de ser?

- Eu soaria hipócrita se não afirmasse a perca de não saber quem eu sou mesmo.

O silêncio dominou.

Do lado de fora da cabine, uma moça bateu à porta trancada. Ele abriu.

- Desculpa incomodar, mas o senhor vai demorar aí dentro? Preciso fazer uma ligação urgente.

Não sabia responder à adorável moça se já teria terminado o que estava fazendo ou não. Sentia-se em uma outra instância de vida, onde não entendia onde estava e muito menos o que fazia. Aquele até então estranho trouxe-lhe a um questionamento que gelara sua alma e a conduzira a digerir aquilo tudo como esperar que a luz do sol a derretesse.

- Senhor, desculpa novamente, caso o senhor for demorar, vi que está com um celular em mãos, poderia me emprestar?

De boca aberta e perplexo olhando para a moça, sentiu-se ainda mais atordoado. Engasgava com as palavras e não sabia se expressar, sentia-se confuso na sua própria maneira. Os olhos turvos, os ombros baixos, a boca inquieta. Encostou na parede da cabine e escorreu até assentar-se no chão.

- Deixe-me ajudá-lo. – disse tomando o celular de sua mão o levantando e saindo dali.

- Tem um número...

- Oi? Não entendi.

- Tem um número... – e assentou no banco que estava anteriormente.

- Que número, senhor?

Com a respiração fracionada, os olhos piscando mais do que o normal, a boca seca como a casca de um pêssego e as palavras saindo em proporções de fraqueza, pediu:

- Ligue para o primeiro que está registrado nas minhas chamadas, por favor.

- Tudo bem.

A moça ligou.

E a cabine tocou. 

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