Timing


posted by Tiago Peçanha

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Alicia e Will tinham um caso complicado. Havia amor. Havia o mais intenso sentimento de desejo. Havia um lobo uivando em suas barrigas em cada vez que se viam. Havia o olhar feroz de uma coruja para sua presa quando se encaravam. Havia tudo necessário na bolsa para uma viagem apaixonante. Só não havia timing. Suas vidas operavam como duas linhas paralelas. Enquanto Alicia pegava o elevador; Will ia pela escada. Enquanto Will precisava de três copos de vinho para ter coragem de ligar e dizer que a amava como um esquimó ama seu iglu, Alicia, minutos atrás antes de desligar o telefone e com a atendente no canto do ouvido, pedia o cancelamento da caixa postal. Era assim: fazia chuva em dia de sol.

Alicia e Will, da série The Good Wife, são exemplo crasso do que como os próprios roteiristas definiram de “bad timing”.

Quando a vida tem um relógio atrasado para os seus compromissos desejados. Quando você cria no âmago do sentimento um desejo de andar de montanha-russa, chega no parque e ela está quebrada, sendo que há minutos atrás ela funcionava. Quando algo surge para você, mas há toda uma história que foi vivida anteriormente por aquele algo e que te impede de tê-lo, afinal você não chegou a tempo de ter sido alguém para ser vivido com o algo. Mas novamente usarei o exemplo de Will e Alicia para tentar explicar de uma forma melhor e como um exemplo mais fácil.

Alicia era casada com Peter. Will foi um amigo da época da faculdade de direito. Entre eles sempre houve faíscas, mas que destas faíscas nunca um resquício caía em madeiras para formar uma chama. Alicia não amava Peter, em vista de deslizes consideráveis de seu marido. Vivia num conflito assombroso. Quando Will e Alicia começaram a trabalhar na mesma empresa, aquela pequena massa de amor virou uma rosca gigantesca. As coisas tomaram uma forma obsessiva. Mas não poderia acontecer. Will tinha um bad timing. Alicia tinha um bad timing. Lá atrás, quando se conheceram, sim, aquela foi a época. Tentar fazer com que acontecesse agora não dava. Já havia uma história. Era um amor com faixa amarela de proibido entrar nos corações. Como tentar rabiscar tudo vivido com Peter para viver uma coisa insana com Will, aos quarenta e tantos anos de idade e largar filhos e marido para trás? A vida não deixava que funcionasse. O seu timing, incessante e rigoroso, era terrível. Quando Alicia rompeu as relações com Peter, ela correu aos braços de Will. A coisa parecia que ia funcionar daquela vez. Mas não, se estamos falando de desencontros, eles não dispensam clientes assíduos. Peter foi eleito governador. Para passar uma imagem segura e de defensor da tradicional família, eles teriam que voltar. As crianças precisavam de uma estabilidade financeira, em vista de uma boa escolaridade. Alicia pensava também em seus filhos. Ela teve que voltar. Will entendeu, mas se aborreceu. No entanto, em seu costumeiro ritual de tomar um whisky ou um delicioso vinho, agarrou o telefone como um apaixonado atacante agarra a bola aos pés e ligou para ela e se declarou: de eu te amo até querer te chamar pra sempre de minha. A ligação foi para a caixa postal. Eli, gerente de campanha de Peter e nesse dia com o celular de Alicia em mãos, escuta a mensagem. E a deleta, obviamente. Era tudo que Alicia precisava e queria ouvir. Era tudo que Will queria que Alicia ouvisse. Mas eles eram um casal com endosso de bad timing.

Quando vivemos certas circunstâncias pensamos ser Will ou Alicia. Caminhamos em nossas maneiras, mas não acertamos o passo correto e tropeçamos. Tentamos ir de encontro a mais potente chance de felicidade, mas sempre há um tempo de atraso, um compasso dissonante, um tic a mais que um tac.

Bad timings acontecem mais do que regularmente necessitariam. Quantas vezes aquele velho chavão que ouvimos de quina de janela “Se não aconteceu, é porque não era pra ser” não salgou nossos doces sonhos?

Vivemos dessa forma: reféns da ocasião e da surpresa. Ora, se vier a calhar de repente uma felicidade, que ótimo. Mas o problema é não saber quando ela vem. 

Talvez seja esse o estranho charme do desencontro, do bad timing


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