Ô, meu amor


posted by Tiago Peçanha

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E de repente virei pro meu amor e falei: “Tu te encontras nas minhas palavras?”.

Às vezes eu falo, escrevo, penso, mas acolho-me nessa invariável incerteza se aqui tu te identificas.

Mas eu vou lapidando umas palavras e você me acompanha, certo? Nem que aqui não se veja.

De certo o que há no meu íntimo é não saber de nada. Como ter no punho um lápis e noutro uma questão matemática sendo que sou herdeiro de amores das humanas. Se assim me permite intitular-me, meu amor, sou filho das letras, amante das paroxítonas e devoto de uma pá de orações bem ou mal subordinadas.

Ô, meu amor, fala para mim, diga-me se é assim que se faz com minhas palavras: se eu posso te procurar no meu mini-globo terrestre que eu chamo de coração? Te encontrou? 

Talvez se eu pôr o dedo ali no meridiano e dizer a localização da minha memória mais aguçada de você seja um bom caminho. Deu? 

Quem sabe dizer quando me perguntam onde fica essa libido toda que eu frutifico e com toda minha imprecisão mineiro-geográfica indicar: é ali ó! Tu ama meu mineirês? Essas minhas palavras cheias de paixão regionalizada, tu te encontra nesse comboiozinho, amor? Ou melhor, tu te encontra naquele trem?

A cada parágrafo vou sentindo insuficiência. Pareço aquele Chevette velho que ganhei num sorteio de uma rifa num bairro que “gato” existe ambiguamente. Tu te recordas quando te contei isso, meu amor? Não? Ou então daquela vez que só me faltou sangrar os dedos de tanto que eu tentei te puxar pelo braço e apontar para milhares de direções e galáxias de palavras que em cada sílaba tinha um pouco de você? Dizia “Esses lugares todos? A gente vai junto”, quando me referia aos meus sonhos? Não?


Ainda assim, deixo no ar as palavras. Mas digo baixinho: trata modo de se encontrar nelas! 

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