Sobre amores e otimismo


posted by Tiago Peçanha

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Otimismo é assumir que, independentemente de circunstâncias, entraves e dificuldades, haverá um jeito da expectativa dissipar-se de si e tornar-se algo concreto. Ele é, também, mais ou menos uma felicidade presente em uma forma substancial de um ideal. O otimismo apresenta-se como segurança, como fulgor inspiratório para chegar lá, para fazer-se valer o pensamento positivo. Juca era otimista. O “vai dar certo” não saía de seus pensamentos, muito menos das sobras de sua memória. Pensar que não seria do modo expectado para ele era como aquele imprestável resto de gasolina vazando pelo cano do carro a viajar.

Juca, além de tudo, era também romancista desses mais arcaicos. Guardava no cabelo um brilho intenso de laquê, do corpo o perfume se sentia em outros continentes, na vestimenta só se via amassada a blusa pra dentro da calça combinando com o terno-cor-de-azul-fumê. Era assim que Juca ia nos primeiros encontros. Uma figura elegante trazida dos anos setenta, mas com alma moderna.

Neste dia, Juca estava sentado na mesa quarenta e sete. Combinara de se encontrar com a moça que lhe deu o simples prazer da conversa despretensiosa e do chamego de querê-la mais.

Ela, formada em segurança do trabalho, era auxiliar de um engenheiro civil recém-chegado na cidade. Juca, assistente social, fazia visitas rotineiras para recolher doações mensais daquele lugar para sua instituição. Ela o atendia sem distanciar os olhos. Falava pausadamente e fazia do português a língua mais linda dessa América. Era dona de uma personalidade forte e a maturidade era como charme de um blues naquele recipiente de desejo. O convite para conhece-la fazia-se inevitável. Convidou. Ela disse “A gente combina assim: espere no novo Bistrô que abriu recentemente na Rua Adenor Estevam, na Avenida Blumenau Eustáquio. Posso te surpreender”.

Para um saudoso otimista, um prato cheio para devorar instantaneamente sem deixar sujar os lábios.

E Juca esperou.

Sentado no lindo bistrô italiano, esperou. Ansioso, impaciente, mas esperou.

Ele disse para ela que estaria lá quinze para as nove da noite. Já passava das dez. Mas Juca acreditava. A moça iria aparecer. Eles teriam um jantar daqueles que a comida seria apenas cenário, mas os diálogos e a troca de paqueras a ópera da noite. Pediu outra taça de vinho. Dessa vez a virou completa e rapidamente. O nervosismo estrangulava sua paciência. Com seus sapatos previamente engraxados ensaiava um sapateado. Ajeitava o paletó. Espiava pela janela e não enxergava a moça chegando em nenhuma maldita esquina.

Dez e vinte e cinco. Nada. Juca, na quarta taça de vinho, esboça um desespero. O otimismo ainda existia. Ela viria, ele tinha certeza, ele desejava, ele precisava. Juca tinha tanto pra dividir com a moça. No dia que combinaram de se encontrar Juca pairou em nuvens azuis de esperança e como uma gaivota voava por milhares de possibilidades de lugares assistindo a vida ser como ela é, ver lá de cima a história de patrimônios da humanidade que poderiam visitar e sentir o mundo a dois. Mas a moça não aparecia.

Estava insuportável. Já era quase onze e meia. Todo o seu ideal de otimismo descia como um pequeno restante de areia numa ampulheta. Questionou-se se valia a pena ser assim. Indagou se tivesse esperado menos, se soubesse que uma recusa ou um não vir seria absolutamente algo esperado, talvez neste momento não estivesse como estava. Quando uma fatia pequena de pessimismo lhe foi servida, a degustou e dela remeteu-se um raciocínio: do questionamento sobre a suposta aceitação do convite. Ela disse “posso”, algo que sugere possibilidade, não certeza. E mais ainda: quem tem absoluta convicção de sua resposta não usa “surpreender” em sua frase. Naquele momento o otimismo se esvaiu. Escorreu como sombra pelo vale das trevas e se perdeu como o voo de uma abelha numa tempestade.

Juca lamentou mais pelo fato de perder uma ótima possibilidade de conhecer alguém que fosse força e direção suficiente em sua bússola. No pensamento prescrevia uma nova possibilidade e a teve naquela variação de como saber nadar e se divertir em novos mares. Ela era como ganhar um estojo de canetinhas e uma cartolina branca.

Não aguentou esperar mais. Foi até o caixa. Perguntou se eles aceitavam cartão de crédito. Gentil, a atendente disse que a maquina estava em uso em outra mesa e que ela já voltaria. Juca aproveitou para ir ao banheiro. Quando voltou e ajeitava suas calças, ouviu de longe a voz da moça. Seu coração faltou só dar um salto olímpico de seu corpo. Olhou ainda que distante e percebeu que era ela mesma. Foi andando devagar e de repente viu que um rapaz chegou perto dela e colocou a mão em sua cintura. Ele pediu pela mesa quarenta e sete.

Juca abraçou de forma intensa o pessimismo e pensou que já não era possível mais. Ela fez tudo direitinho e de forma sútil para mostrá-lo que era comprometida e ele teria de engolir aquilo tudo a seco, ainda que questionasse suas deduções, pois, se tratando de uma pessoa madura, aquilo não fazia o menor sentido, ou até poderia: se ela sentisse que sua bondade não fosse merecedora de uma negação ou muito menos seu otimismo de conhece-la fosse algo tão facilmente ignorável. Sentiu ódio de seu espírito otimista e desejou enforcá-lo em praça pública. Questionou seus métodos de pensar positivo e de fazer de suas expectativas algo que seguidamente almejaria que daria conta de conquistá-las. O otimismo, segundo Juca, trouxe-o a indócil experiência de frustração. Não saberia se depois daquele dia ele continuaria sendo como era. Embora que abandonar seu estilo de toda uma vida anterior seria abraçar uma ideia de imediatismo. Mas era um ótimo ponto a se pensar.

Quando foi até o balcão para acertar a conta, timidamente cumprimentou os dois. Ela, eufórica, o cumprimentou:

"Não disse que te surpreenderia?"

"Só não esperava que fosse tanto." – sem graça, abaixou a cabeça.

"Desculpa o atraso. Mas é que eu discuti muito com o meu irmão ciumento e só cheguei ao acordo de que poderia vir se ele viesse junto. E ele veio."



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