Nosso primeiro pum


posted by Tiago Peçanha

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Completaríamos seis meses juntos em Outubro. Nem parecia. O tempo voa e a gente nem se dá conta. Olha uma vez pro calendário e lá está Julho. Vira, dá uma volta na rotina, olha de novo e lá já está no finalzinho de Setembro. Parecia até o tempo que eu passava com ela: mais rápido que salário indo embora depois do quinto dia útil. Falavam que isso era a tal da intimidade. Não tão completamente, mas eu bem que concordava. Falo isso porque a gente nesse pouco tempo já tinha contado muita coisa um pro outro. Já tinha dividido ronco em dia que encheu muito a barriga e já viu um mais depilar a laranja do que propriamente cortá-la direito. A gente compartilhava histórias e todo o seu escambau, só não tínhamos compartilhado ainda uma coisa: um pum.

Ela era bem educada. Serena que nem um bem-te-vi tomando água numa pocinha em cima duma taioba. Eu desconfiava até se ela já tinha arrotado em público ou pelo menos em casa. Não, não combinava com ela. Nem uma coçada naquela durinha e ressecada meleca no cantinho inalcançável do nariz. Isso que me dava amor por ela: ser elegante na sua maneira, sem forçar, ou fazer carinha de nojo pro meu frango a molho pardo.

Mas se eu fosse um dia presenciar uma cena inescrupulosa dela, que fosse uma coisa mais grosseira, mais exagerada. Olha só, não que um pum tenha mistério, temos anatomicamente a obrigação de colocá-lo pra fazer sua valsa no ar, mas comigo não tinha meio termo. Eu olhava pra longitude que nossa relação se propunha e nela eu via que o exagero não somente se apresentava como melhor opção, mas também como necessidade.

Combinamos um dia de assistir um filme juntos. Filme, esse eterno pretexto pra qualquer intimidade fazer-se intimidade. Nem me lembro qual escolhemos, mas decidimos por um jantar antes das exibições. A gente preferia comer antes de assistir. Paradoxalmente também éramos próximos.

Adocicava meu amor quando ela me via de avental desses que cobrem o botijão de gás do frio e tinha nos olhos o brilho de quem amava aquela marmota toda. Não obstante, nem quando meu cabelo fedia a molho de tomate com cebola a assustava com um beijo em minha nuca. A nossa intimidade permitia cada coisa que só vendo.

Terminei a preparação e sentamos sem estar a luz de velas. 

- Vinte e cinco ovos de codorna. Meu irmão comeu hoje. Vinte e cinco, acredita?
- E você?
- Vinte.
- E não deu nada? Sei lá, um rebuliço?
- Sabe aquele tremor que se ouve antes duma avalanche? Então, aqui tá assim. Eu deveria ter comido só uns dez.
- Nem vai aguentar comer meu macarrão com atum, né?
- Dou conta e ainda peço bis.

Ela se remexia muito. Parecia inquieta com alguma coisa que não somente sua barriga. Talvez fosse vontade de mim. Amo quando ela brinca de danada. Mas não era.

- Amor... sabe quando tu ouve um barulho fininho? Raso? Parecendo quando abre só uma gretinha da porta, sabe? Quando você tá enchendo um balão e sem querer solta a boca dele um pouco? Aquele barulhinho?
- Tentando imaginar.
- Quem sabe faz ao vivo, não é assim que dizem por aí? Desculpa, mas vai ser assim.

E ela soltou. De acordo com a descrição. Um peido leve, tímido. Eu falei peido agora. Já criei intimidade até com quem me lê. Mas eu gostei que ela apresentou o pum à plateia.

- Sua vez, amor.
- A gente tá numa competição?
- Não sei, só sei que não seria legal eu ser a única hoje. 

Continuamos nosso programinha no estilo mais conveniente possível. Deixei no ar, junto com o dela já disperso, o mistério de quando sairia o meu.

Deitamos nos três colchonetes empilhados com uns quatro edredons e ligamos os aparelhos. Deu nem quinze minutos de filme e já era mão lá e mão cá. A gente nem prestava atenção na TV. A gente punha a mão e fazia carinho em tudo quanto é lado. Quando minha mão deu de encontro com uma nádega dela, estava até me sentindo um sambista judiando dum pandeiro. Ela foi deslizando as unhas pela minha barriga e foi nessa hora que senti abrirem as portas da represa. Consegui ouvir coisas na minha barriga que faria uma vítima de deslizamento de terra sair correndo. Se fossemos para os finalmente, era melhor estar com ela limpa e vazia.

Fui até o banheiro. Esvaziei o congestionamento, engatei a marcha e fui pro segundo tempo.

Emboquei-me no edredom e fui brincando de escalar o corpo dela apenas usando minha língua como suporte. Quando atingi a linha do equador de seus seios, ela me suspendeu rapidamente e me aplicou um beijo intenso. Logo após, apertou forte minhas costas e me juntou ao seu corpo. Pronto. Foi o aperto necessário para a bola estourada espirrar o resto de ar dentro de si. O problema é que ele saiu sorrateiro. Daqueles peidos ninja, sabe? Aquele peido gambá: que chega sorrateiramente no lugar e você só percebe que ele está ali pelo fedor? Foi assim.

- Amor, sabe aquelas mulheres havaianas que ficam abanando aqueles carinhas ricos deitados na rede?
- Sei.
- Tente imitá-las agora com um edredom.
- Não pode ser. Eu nem ouvi.
- Vai. Sacode isso aí. Sacode feito uma bandeira hasteada num dia ventoso.
- Isqueiro, luz, essas coisas. Pelo amor de Deus, nem ouse ligar agora.
- Meu medo é atrair urubu e não saber como espantá-los.
- Percebeu? 
- Por que a gente não se permitia a isso antes? 
- Olha, se eu der mais uma abana...
- Sim, sim, sim! Nem por misericórdia levante esse negócio. Mas eu me senti livre. Parecia uma coisa, não sei, que me enclausurava. 
- Voa, passarinho! Voa pra esse céu de metano.

Eu sabia, apesar de tudo, que intimidade constrói-se, constante e irreparavelmente, de forma harmônica. Ao passo que uma forçada de barra soe sempre invasiva, um consentimento ou uma acontecimento corriqueiro abrandam, assim por dizer, mais ainda esse alicerce que a partir dali tomamo-nos por montar.   

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