2014


posted by Tiago Peçanha

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- E aquele emprego que apareceu para você alguns dias atrás? Como foi?

- Era de manhã cedo. Recebi uma ligação. Inesperada, confesso. A moça do outro lado mal anunciou que estava convidado a me juntar à equipe que quase não consegui conter minha felicidade: tapava minha própria boca e dos dedos vazavam mínimos gritos histéricos de euforia. Quando me recompus, ela começou a perguntar sobre disponibilidade. Trabalharia durante pelo menos longos seis meses sem fazer muitos gastos e apenas juntando dinheiro para um fundo investidor o qual colocaria meu avô debilitado num albergue e vê-lo longe do sofrimento da indisponibilidade da família. Mas o que eu não sabia é que no local que eu trabalharia um dos chefes era também um dos sócios do albergue que rejeitou o pedido anterior que eu já tinha feito com o décimo terceiro de minha prima e o PIS de meu outro emprego para internar meu avô. E o pior: existia somente este albergue num raio alcançável da nossa falta de transporte. Escolhi por abandoná-lo. 

- Mas abandonou assim tão fácil algo difícil de conquistar?

- Meu amor por meu avô era maior que qualquer emprego. Mesmo que a decisão doesse. 

- O que você fez depois? Deveria estar desorientado.

- Logo depois liguei chorando para minha irmã e disse que a visitaria para desabafar. Pegaria o ônibus para Ilhas de Macaé, que parava a mais ou menos cem metros da casa dela. Era uma viagem longa, quase a uma hora de distância. Eu odiava ter que ir até lá dessa maneira, sempre me estressava. Mas, como era horário de pico, o ponto estava lotado, para variar. Eu sabia que quando o ônibus chegasse ele ficaria abarrotado. Dito e feito. Acabei ficando em pé. Esmagado entre axilas erguidas e mal depiladas. Até que o ônibus parou num ponto e do vidro vi alguém subir. Sim, o cara que matou a facadas meu irmão e que já havia cumprido a pena que a justiça entendia que valia a vida de um inocente. Ele ficou no final do ônibus e eu me escondia para que ele não me visse. Eu tinha que dar um jeito de sumir daquele ônibus. Acabei por parar quase um quilômetro antes da casa de minha irmã. Mas foi para melhor. O que me deixou em choque é que estava descendo pela minha timeline no Facebook e vi muitas pessoas comentando que aquele mesmo ônibus veio a chocar na ponte dos Cinco Cisnes e todos as pessoas que estavam nele tiveram que descer e esperar pelo próximo que sairia da garagem para buscá-los. Disseram que o motorista dormiu. Mas apenas alguns ficaram feridos.

- O assassino de seu irmão poupou-lhe de uma possível tragédia.

- Prefiro entender apenas como um instinto de sorte.

- Mas ficou só por isso?

- Não. No caminho para casa de minha irmã decidi ir até o mercado comprar maracujás para fazer um suco e um mousse. Enquanto escolhia, sentia que alguém me fitava por trás. Entre a bancada dos maracujás eu tentava olhar quem era com o rabo do olho. Avistei. Era ela... era ela...

- Elisângela?

- Sem perder o timbre daquele olhar maligno.

- Ela te cumprimentou?

- Eu não queria. Seria como cumprimentar a tristeza e chamá-la para comer um pudim à noite. Mas ela veio de encontro a mim. Perguntou coisas triviais e não desviava a atenção do quanto eu evitava lhe encarar nos olhos. Você sabe como a gente funciona, não sabe? Amores passados quando vistos pelo espelho da alma doem como a subida do efeito de uma pinga tomada de estômago vazio. Eu queria. Mas não podia. E ela sentia uma vontade de me acolher, de sentir o meu sentimento e me apertar nas costas e fazer cuspir tudo que estava guardado. Mas eu permanecia de poucas respostas e fazia do chão a melhor companhia de meus olhos. Até que ela disse que a gente deveria ir caminhando e conversando até a casa de minha irmã. Aceitei. Minhas mãos borbulhavam para achar as dela. Queria que seguíssemos pelo mesmo passo. Mas a vida fez da gente um perfeito desencontro. Ela me disse que se arrependia e sentia falta do meu carinho. Acolhi a esperança, não medindo consequências e nem as feridas ainda abertas. Ela parecia animada. Tinha os olhos fortes como eram característicos, mas perdidos nas dúvidas das escolhas. Porém, ela me disse que tinha casos inacabados. Para variar, os fantasmas que assombraram nosso relacionamento. O celular dela vibrou. Ela pegou para atender. De longe consegui ver a imagem. Era o chefe do local que eu acabara de pedir demissão.

- Essa coincidência me faz duvidar da sua história.

- Para te ser sincero, a minha vida é uma eterna vivência em coincidências.

- Mas parece tudo conectado e ao mesmo tempo desencontrado. Não sei dizer.

- Se minha vida tem um status, a frase infinita dela é essa que você acabou de dizer.

- E o que aconteceu depois?

- Despedi-me. Disse para me ligar quando resolvesse tudo, ainda que em mim houvesse um peso de uma bigorna nos ombros. Por fim, quase noite, ainda no caminho para casa de minha irmã, verifiquei meu celular e havia uma mensagem enviada há horas atrás por ela. O marido dela havia arrumado uma oportunidade de emprego para mim. Precisamente ele tinha anotado o número de um cara que era só ligar naquele dia mesmo que ele arrumaria uma vaga. Não acreditei. Chegando na casa dela, a encontro em prantos. Chorando de escaldar o corpo todo. Perguntei o que havia acontecido. Ela me disse que o marido havia sido assaltado e espancado. Roubaram-lhe celular e tudo. Seu choro dividia-se em muitas vertentes: desde o marido quebrado no hospital, até me ater que o contato para o serviço estava naquele celular. E somente o marido dela poderia me indicar a esta pessoa.

- Quanto desencontro! E acharam o assaltante?

- Lembra que te disse que o ônibus que eu havia pegado bateu e todos os passageiros desceram?

- Não me diga que o cara que matou seu irmão foi a pé, encontrou seu cunhado no caminho e fez isso tudo a ele?

- As coincidências não dão sossego nem nas piores horas. E nem os desencontros.

- De novo eu não consigo acreditar. Tua vida neste dia foi de uma intensidade inigualável. 

- Eu vivi o suficiente para me encontrar num tiroteio de desencontros. Mais ou menos como inspirar um desejo e em seguida expirar não consegui-lo. 

- E os outros próximos dias? Como ficam? 

- Com excesso de inspiração. 


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