2016


posted by Tiago Peçanha

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A pilha de relatórios se erguia. O telefone do escritório tocava e o som se esvaziava aos poucos que não era atendido. O bater na porta enfraquecido, miúdo como a desesperança do atendimento. A caneta ora repousada, ora atrás da orelha, ora em onomatopeia com a mesa, ora em concerto com o repique dos pés. A resposta não vinha. O celular não disparava fogos e o avião não passava no céu dispersando em fumaça “sim, eu aceito sair com você”. Donn não se aguentava. No aplicativo o pedido para sair feito a uma garota que de ti não conhecia nada, senão somente a casca do seu ser. Pedido feito um dia e meio antes, contado em cada segundo de ansiedade. Na mensagem, um pouco singelo, educado; na foto, robusto como um disfarce perfeito de algo chamativo. O galanteio direto, objetivo como a teia de uma aranha perto de um mosquedo. Em sua cabeça rodeava a matemática da média, sendo que pensava ter a nota suficiente para ter a aprovação daquela garota.

O celular vibrou. Era uma chamada pelo whatsapp.

“Mãe está ligando”.

- Oi. – disse, esbravejado.
- Acabei de tirar do forno. O carbonara talhou e ficou sem sal; as almondegas só parecem uma carne sem vida.
- O que eu vou fazer? Não passei tanto tempo fazendo essa merda à toa.
- Quer impressionar alguém? Pelo seu tom eu vejo um desespero por aprovação.
- Eu nem sei se vai ter alguém para provar.
- Ela ainda não te respondeu, não é?
- Te disse que meu caminhão só transporta cascalho de pedras pequenas.
- Você é mais do que imagina, só não sabe disso. Vou temperar com sazon, besuntar em creme de leite e dar banho de molho de tomate nessas almondegas desanimadas. Não te preocupa.
- Veja pelo meu prato. Eu quero impressiona-la com macarrão e carne moída. E para variar não deu certo. Eu sou mesmo a delinquência do pessimismo.
- Trabalhe. Depois faça o que tem planejado. Tudo vai funcionar. Tropicando, mas vai. – disse, enquanto batia as bochechas nas teclas. – Vou desligar antes que o cheiro de queimado chegue até aí no edifício.

Era noite de ceia de natal. Toda a empresa em que Donn trabalhava se reuniria para uma celebração. Era preciso servir as pessoas com o melhor que cada um pudesse cozinhar. Era esperado por Donn que Sheron fosse até o jantar, afinal, ela era filha do dono da empresa e senão a maior coordenadora do sucesso daquele estabelecimento até então. Ela não trabalhava em seu setor, mas fazia parte do pequeno número de pessoas que poderiam ser convidadas por cada um como uma espécie de regalia empresarial. Ele gastou seu único convite com uma incerteza. Mas Donn pensou que o clima aconchegante da celebração pagã poderia ser a melhor combinação para conhecer Sheron, que não uma festa, ou show, ou qualquer lugar populoso demais. O mundo teria que ser dos dois por uma noite, única e somente para dividir seus olhares e compartilhar suas fantasias e descrever a ilusão de lua cheia em dia de lua nova.  

Pensou em Sheron. Iludiu-se por um instante. Fantasiou o cheiro, o sufoco do abraço apertado, a risada pela escolha de seu prato, a reação maravilhada de sua mãe ao ver seu semblante satisfeito e ornado completamente por um espirito descarregado e pleno com os olhos franzidos em agradecimento por ter sido exatamente como a expectativa.

O celular vibrou. De novo.

No topo do balão de notificação a área que até então mostra o nome da pessoa que a enviava estava vazia, mas a mensagem destacava-se em negrito. Imediatamente cobriu-o com as mãos e fechou os olhos. Poderia ser ela. Respirou fundo e convenceu-se de que um “não” não poderia ser nada mais que uma escolha normal e individual dela. Recolheu o aparelho até seu colo e embeiçado entre suas pernas. Contorceu os ombros para dentro, desenhou angustia nos lábios e apertou os olhos como se uma dose de uísque quente tivesse-lhe descido goela abaixo. Retirou a mão da tela.

“Corpo de jovem é encontrado estirado em uma lixeira, onde não apresentava hematomas e suas roupas encontravam-se completamente bem-conservadas. A pequena bolsa de mão estava caída ao chão, aberta, mas com seus pertences dentro. A polícia suspeita de assalto seguido de homicídio...”

Interrompeu a leitura. Inclinou a coluna e bateu levemente a testa na quina da mesa. Baforou. Recusou-se a ler o resto. Era inacreditável pensar um mundo moderno que não se livrou de correntes pela internet.

“Mãe está ligando”

- Vai me dizer que a comida queimou mesmo?
- Acabei de receber aqui no whatsapp uma notícia de um assassinato e...
- Mãe, para de te impressionar com essas coisas! Essas correntes não existem!
- Menino, mas vieram fotos e vídeo também, não recebeu aí?
- Só o texto e mais nada.
- Vou te mandar.

De posse da tela desbloqueada e dedilhando as fotos, o olhar sereno deu lugar a uma breve palidez, seguida da diminuição lenta e progressiva dos batimentos cardíacos e a boca empalidecendo-se tristemente. Os olhos reconheceram aqueles que jamais poderiam conhecer os seus; o cabelo, tão característico no seu rosto, já desfigurado e incrivelmente bem penteado e no seu lugar; ela, deitada no chão, com as mãos como se tivesse esperado pela morte ali deitada e nenhum sangue embebedando o chão.

Sheron estava morta.

- Meu filho, eu não te escuto. Fale comigo.

Donn pouco reagia.

- Eu já mandei um moto-taxi levar as comidas para onde você pediu. É na Rua Pimentas Veiga, não é? A minha cabeça é tão ruim.
- É... Errado, mamãe. Nós nos mudamos para o quadrante seguinte, lembra que te falei? Aliás, me preocupa muito seus esquecimentos.
- Como é que faz? O moço já foi. E agora?
- Eu vou lá.

No noticiário que passava na TV apenas a repercussão da “morte da filha de um grande empresário”, mas não de “Sheron Gonzaga Litto”. A parte mais curiosa ficava pelo fato da família ter solicitado que o velório acontecesse no hall da empresa, local que ela mais frequentava dia-a-dia, tinha seu amor enfático e dedicado, e um dos pilares mais fortes de seu pai na manutenção daquele lugar. Toda a família Litto se reuniria numa ceia de natal, mas para levar ao topo da árvore a estrela de Sheron.

Ainda que o clima não fosse nada convidativo à qualquer jantar ou comemoração, toda a família de Sheron decidiu por não adiá-lo. Ela amava aquela data como quem ama pelo simples sabor que aquele dia trazia alegria compartilhada.

Donn foi até o antigo endereço para recuperar o que tinha feito.

Quando retornou, todos os pratos na mesa estavam figurando um banquete triste. O seu, só mais um que feito para uma expectativa que nunca iria se cumprir. Após colocá-lo na mesa, foi de encontro ao caixão de Sheron. Queria poder vê-la de perto.

Sua pele estava cinza, sua boca colorida, suas mãos sem vida e seus cílios cabisbaixos. O vestido preto contrastando com seu cabelo. O véu escondendo seu rosto. Era triste pensar que queria lhe conhecer serena como se apresentava sorrindo em suas fotos e tudo que via era o fim de uma jornada de quem só tinha muito ainda para viver. Parecia dormir quieta como um monge. Seu peito estava mais estufado, ou indicava algum inchaço de uma má reação de seu corpo. Com todo o respeito, colocou a mão logo abaixo de seu pescoço e respirou fundo engolindo em seco. Cochichou uma oração. Sentiu o coração dela bater.

Donn caiu ao chão destrambelhado. Repetia monossílabas e rastejava as nádegas no chão. Não conseguia se erguer. Chamava pelas pessoas e ninguém lhe entendia. Um tio de Sheron o ajudou a levantar. Com as mãos no joelho e rangendo de susto, disse ao tio para colocar a mão no peito da falecida.

O tio sentiu também.

Gritos finos como grafite quicavam em cada canto do hall. O desespero somado a uma esperança que jamais se desenhou antes. A ceia esboçava um milagre natalino e a medicina via-se confrontada com seu diagnóstico precário. Aquele corpo reagia. Biologia, física e química já aposentavam-se nos livros dos mais vívidos e pulsantes corações de cada um ali presente.

Com o rosto enxurrado de lágrimas, Donn percebeu que não sentia a respiração de Sheron. Era preciso fazer uma massagem cardíaca para revive-la de fato. Ergueu as mangas do terno e chamou por todos. Apertou fortemente o peito da garota.

Todo o hall explodiu.


As chamas lamberam as ruas, as fiações e as buzinas dos alarmes dos carros anunciavam um ato terrorista. Uma bomba encontrava-se instalada dentro do peito dela. 

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