PERDÃO


posted by Tiago Peçanha

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Faltava ar. O que era aquilo no reflexo? Havia um borrão no seu rosto, não te reconhecia, seu corpo estava todo fragmentado. Estávamos de mãos dadas a segundos atrás. Agora não estamos mais. Não fazia sentido. Sua risada perpetuava-se num eco canto a canto pelos ouvidos, até que findava-se quando eu tentava encontra-lo. Eu não consigo compreender. O meu sistema deve estar em pane novamente.

Eu tinha um plano. Era uma ideia. Eu devo voltar à essa ideia. Talvez a razão esteja lá. Talvez eu saia desse bug.

Cliquei. 

Lembro que queria um pano que não me fizesse espirrar. Não podia ser algo tão fino, mas também não podia ficar tão preso à pele, sufocando meus movimentos e evidenciando meus desleixos pelo corpo. Tinha que ser branco, com mapas pretos que se perderiam por toda a costura e que dariam unidade ao meu estilo. Para os pés, nada ali na loja serviria; para a cabeça a mesma coisa. O alfaiate desenhou-o pela malha, de acordo com a postura que havia pedido. Era de comum rotina ele perguntar o motivo, ainda que nunca recebesse nos ouvidos qualquer resposta. Só o fazia, como o prazer do trabalho ordenava. Uma vez que terminou sua obra de dias penosos atrás, persistiu em plantar indagações, e novamente não colheu nada. Enverguei a carteira e fiz voar as notas no balcão. Agradeci o trabalho do velho amigo e dei com os panos prontos nos ombros.

Em plena contramão à minha casa, dancei com as rodas do carro no rodapé do loteamento vago perto de uma fazenda e estacionei rente ao murinho triste de madeira. Subi no tronco mais parrudo e assentei-me a encarar o vasto gramado. Fitei a bela vista e tive no olhar a atenção do estudo daquele lugar. Ele fazia uma sinuosidade, sem nem perceber que parecia uma onda esverdeada. Dava lá no pico a vista mais panorâmica do céu: o mar de estrelas que viria à noite era um presente para se ver deitado. Conduzi-me a um breve momento de reflexão, encaixando meu braços respirando fundo, bem como despencando meus olhos para baixo e afrouxando meus ombros. Por incrível que pareça, meu plano parecia fazer sentido naquele horizonte sem nada. Suguei o ar como se nunca mais fosse respirar e despedi-me dizendo “até logo”.

Num mata-burro ali próximo, encontrei uma cabeça de boi num portão enferrujado. A peguei. Quebrei-lhe os chifres sem delicadeza e arranquei-lhe a parte do nariz, com a melhor sutilidade cirúrgica que fosse possível no momento. Ao lado dos números que identificavam o lugar havia uma ferradura, que foi furtada para se juntar às outras três que já havia saqueado de outros lugares.

Não havia mais nada que quisesse fazer, apenas recolher-me em casa e esperar a noite para retornar àquele local.

No quarto, deslizei a mão pelo rosto, como se quisesse limpá-lo sem nada por ele. Engoli em seco. Girei os olhos em um redemoinho infinito, tudo conduzido pela força centrípeta dos imparáveis pensamentos. As neuroses obsessivas assumiam o posto de comandantes da mente. Tudo era ruim. Tudo era pessimismo. Dei um selinho na xícara de café quente e assentei-me em frente ao computador. Nada fazia sentido. Digitei no campo de pesquisa do Facebook “Gaya”. Logo apareceu o rosto dela, da Valeria Gaya. Sorridente, como era de praxe.  Não cliquei. O “Em memória de” antes de seu nome ainda estava lá. Era como um túmulo online. Isso trazia-me a um indócil desmaio nas minhas próprias neuroses. Sentia-me culpado. Inclinei as costas para trás. Grudei os olhos no teto. Cocei a nuca em negação. Esmurracei a mesa com as mãos e com a testa. Sufoquei-me em uma angústia que ardia, enquanto não sentia-me em lugar nenhum. A ideia era de um surto. Até que de fato assim virou. Deitei-me na cama para expurga-lo antes que tomasse conta de mim por completo. Fechei os olhos e esperei que o tempo passasse.

Horas depois, levantei-me girando o tronco para o lado e catei na gaveta aberta do criado-mudo os panos que comprara. Fui até o banheiro e abri o pote de tinta branca. Pintei todo o meu rosto – incluindo o cabelo, as pálpebras e também as orelhas. Na cozinha, embaixo da pia havia um saco de linhagem. Apanhei-o e abri. Havia muito mato e também esterco. Joguei metade daquilo por todo o corpo; após colocar os panos que pedi ao alfaiate, terminei de jogar o resto. Acoplei os chifres nas extremidades da cabeça. Em uma gambiarra não muito bem feita, fiz do nariz do falecido boi uma mascará. Nos pés, duas ferraduras coladas abaixo de cada um dos chinelos; nas mãos só colocaria quando chegasse ao local. O traje estava pronto.

Em meu perfil, deixei uma mensagem pública a todos antes de ir ao local:

“Para ter o perdão, é preciso antes de mais nada buscar a razão do motivo que trouxe-lhe a cometer o seu pecado.

“Sejam bondosos e compassivos uns para com os outros, perdoando-se mutuamente, assim como Deus os perdoou em Cristo. Efésios 4:32”

Oito e vinte e cinco da noite. Do assento do carro já observava a escuridão da fazenda. O céu estava limpo, completamente contrário de minha mente, que não me dava paz sequer por um segundo. Deixei o veículo não muito distante e pulei o cercadinho.

Adicionei as últimas duas ferraduras, dessa vez em cada uma das mãos. Fiquei de quatro no gramado. Hesitei um instante. Comecei a imitar uma vaca. Mugia alto, baixo e falhado. Transpassava pelo silêncio, mascava umas folhas no chão e encarava qualquer lugar que meus olhos estivessem fixados.

A neblina da madrugada convidava indelicadamente o arrepio na pele. Mas eu resistia. Entre algumas lágrimas que jorravam tímidas levando a tinta do rosto, resistia. Eu precisava encontrar onde havia surgido a raiva daquele dia, também o motivo do pecado. Enquanto secava o rosto observei a projeção intensa de uma sombra no chão. Uma luz muito forte vinha no sentido oposto, em altura considerável, mas mantendo distância de mim.

- Muuuuu, muuuuuu, muuuuuu. – com um alto e definido som, imitei ainda com mais contundência uma vaca.

A luz foi se aproximando. Dessa vez fazendo giros incríveis e ornada em uma intensidade desconhecida do que de costume já tivera visto antes. Imitei um leve cavalgar até rente a luminosidade e continuei meu espetáculo bizarro.

- Por que você está fazendo isso? Quer enganar a quem? – disse a voz vindo dispersada nos raios das luzes.
- Muuuu, muuuu.
- Pode parar com isso. Responda-me, por que está fazendo isso?
- Eu sou uma vaca.
- Rapaz, pare com isso. Venha cá. Vou te ajudar. Está frio demais aqui fora.

Eu reforcei o cavalgar com um relincho tímido. Mas eu não sabia coisa nenhuma do que eu estava fazendo.

- Não se aproxime, senão eu vou te pisotear.
- Calma, calma. Vamos conversar.
- Não tem conversa. Sai daqui senão eu vou te matar.

O senhor aproximou-se calmamente de mim e por fim tentou amistosamente saber o que estava acontecendo. A fúria estava desenhada nos meus olhos, mas meu sistema encontrava-se completamente conflitante, porque ao tempo que não via sentido na raiva, não via sentido na vida, em mim, no tempo, no espaço, em nada.

- Por que você está aqui? Te aconteceu alguma coisa? – disse o senhor, num tom de voz afável.
- Gaya. – eu dizia, enquanto retorcia e voltava o pescoço num tique imparável.
- Quem é Gaya?
- Vaca.
- O que?
- Gaya. Vaca. Gramado. Sangue. Morte.
- Ei, concentre-se. Eu não estou entendendo nada.
- Pisotear. Eu vou te pisotear. Como ela fez. Massacrou, pisoteou, amassou a cabeça. Explosão. Sangue para todo o lado. Sem ação. Sem reação. Sangue. Muito sangue.
- Meu filho, aprume-se. Você está desnorteado.

O senhor estava perdido também. Eu soltava as palavras aleatoriamente e não o convencia de nada senão do meu próprio surto.

- Como eu posso perdoá-la, se com isso que fiz eu... eu não consigo entende-la, muito menos os seus motivos.

Desmaiei.

Abri meus olhos e eu estava deitado nos assentos de trás do meu carro. No meu peito, uma foto minha e de Gaya juntos, tendo como fundo aquele vasto gramado, os cabelos esvoaçados e o sol banhando nossas nucas. Ouvi alguém me chamar. O som estava baixo, porque os vidros estavam fechados. Olhei la fora. Gaya vinha em direção ao carro, destrambelhada com seu jeito engraçado de andar. Eu respirei fundo...

Você não caiu nesse erro da minha mente, caiu? Meu sistema está falhando, não se lembra? Isso é um bug. É uma proteção de tela, assim como aquelas de cachorrinhos pulando na grama e de pétalas de flores de várias cores. Se eu der um clique eu volto à realidade de uma área de trabalho completamente suja e cheia.

Cliquei.

Recobrei-me. Eu voltei a estar no banco de trás do carro. Estava tudo muito escuro. Encontrava-me encarando qualquer lugar pelo vidro da janela. Eu estava dentro de uma viatura. As luzes vermelhas e azuis rodopiando coloriam o gramado avermelhado. Vi um corpo estirado com uma capa metálica em cima. Gaya estava realmente morta; como eu a reconheci eu não sei. Ao lado dela, uma vaca abatida com alguns tiros pelo corpo.

Seria mais um bug? 

Cliquei.

Abri os olhos.

Da viatura eu não havia saído. 

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